terça-feira, 5 de maio de 2020

Histórias de família (9)

Aos 64 anos, relembro o guri de 22 anos que eu era quando meu pai morreu e a imagem é essa mesma: a de um guri. Recém me formara em História (Licenciatura Plena) e minha mãe conseguira (por meio de um político da Arena) um contrato de 12 horas no Magistério Estadual.
Meu primeiro emprego regular. Uma escola em Alvorada (Grupo Escolar Júlio César Ribeiro de Souza). Comecei a lecionar em abril. O pai morreu no final de maio.
Nessa época (início do ano de 1978) o único irmão da mãe (tio Joaquim) foi diagnosticado com câncer, um mês depois baixou hospital e os médicos disseram que ele tinha pouco tempo de vida. Meus avós estavam hospedados conosco e a mãe não sabia como lhes dar a notícia da morte anunciada do filho primogênito.
Era verão e tudo se passou de modo muito rápido. O diagnóstico, a hospitalização, o avanço rápido da doença. Minha mãe atarantada, não sabendo como informar os pais, como conduzir a situação. Ela, a filha dedicada, sempre preocupada com o bem-estar de todos.
Enquanto isso, o pai – sempre um homem determinado, de respostas rápidas aos desafios da vida – se deprime. Minha mãe se divide entre o irmão, os pais, o marido – e não sabe para onde se virar primeiro. Angustiada, ela às vezes desabafava comigo. Deu prioridade ao irmão e aos pais.
– Teu pai teve uma crise semelhante – ela me disse meses depois. – Aconteceu depois que nasceste.
O tio faleceu na metade de maio, o pai se suicidou no final do mês.
Meses depois um dos irmãos do pai (tio Henrique) morreu e minha mãe e eu fomos ao velório. De noite. No mesmo cemitério onde o tio Joaquim e o pai foram velados e enterrados. Uma noite de inverno. A meia-noite um carro de funerária estacionou na frente da capela onde se dava o velório e o corpo do tio Henrique foi transportado. Ele iria ser conduzido a Santa Maria, onde passara a vida inteira.
A mãe e eu acompanhamos a operação de embarque do corpo. Logo depois pegamos um táxi e voltamos para casa. Do Cemitério João XXIII, na Azenha, para a Rua Sete de Abril, no Bairro Floresta. As ruas vazias, o táxi atravessando a cidade, atravessando o mundo, e nós dois quietos. Parecia que deslizávamos por um território que não era real. De repente ela se vira para mim e diz:
– Não aguento mais – e aperta minha mão.
Quando chegamos em casa, ela preparou um chá e ficamos conversando na copa. Apesar de falarmos, lembro mesmo é do silêncio. Nossa conversa não era animada. Meus dois irmãos haviam casado e só ela e eu vivíamos no apartamento onde vivemos nós cinco.
A mãe, uma mulher decidida, forte, com escrúpulos exacerbados, superprotetora em relação aos filhos, vibrante em relação a vida – figura marcante na minha vida – estava cansada. Os seus pais haviam voltado para Pelotas e parte do seu coração estava com eles, longe.
Ela bebia o chá, falava coisas a respeito da minha vida e senti seu manto protetor se fechar em torno de mim. Temi. Não tinha namorada, era um professor em início de carreira, com um livro de poemas na gaveta esperando publicação e temi. Nem sei explicar esse temor. Mas no início do ano seguinte saí de casa.
Seja como for, era um guri. Com uma visão romântica da vida. Uma recusa da modernidade capitalista e o entendimento das coisas que misturava devaneios ripongas com esquerdismo estudantil. Nem sei explicar. Nem sei como meu pai e eu conversávamos.
Na virada de 77 para 78, bebendo vinho com ele na mesa da copa (nunca usamos a expressão “sala de jantar”), ele falou na possibilidade de me presentear com um carro. Tinha esperanças quanto aos negócios em que se metera – a compra de dois caminhões em sociedade, o investimento numa pedreira – e me perguntou o que eu queria.
Então divagamos. Contei que gostaria de cruzar aquele trecho do litoral norte, entre o farol de Mostardas e São José do Norte, e um jeep seria bom. Muito bom também para ir para Fortaleza dos Aparados da Serra.
Talvez tenha sido uma das últimas conversas antes do vendaval que nos abateu: a doença do tio Joaquim, a depressão e suicídio do pai. 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Histórias de família (8)

No final da década de 80 eu morava em Porto Alegre, no centro. Dois filhos pequenos, minha mulher e eu professores da rede estadual e uma vida muito apertada, isto é, com grana curta. Uma noite toca o telefone e do outro lado da linha uma amiga (Tatiana Lenskij), pesquisadora na área da História, conta que encontrou um Biasoli (ou Biasioli, não lembro) em um jornal da década de 1920.
– O nome dele é Vittorio, é teu parente? – ela pergunta.
– Meu avô – eu respondo.
E ela conta o que encontrou no jornal. O Vittorio Biasoli era chefe de seção de uma oficina mecânica, em Santa Maria, e os ferroviários entraram em greve. O chefe da seção não aderiu ao movimento paredista e entregou uma lista com o nome dos grevistas para a direção da empresa. O jornal era de sindicato ou de organização política e denunciava meu avô.
– Teu avô jogava do lado da repressão – ela comenta.
Eu lembro que ele era um imigrante em ascensão, simpatizava com Mussolini e concluo que talvez não tivesse dificuldade em se alinhar aos patrões. Alcançara uma boa posição profissional e queria manter isso. Era o modo de cumprir seu projeto de ascensão social, manter a família e sei-lá-mais-o-quê. Por que iria se preocupar com ferroviários socialistas ou anarquistas?
– Meu avô era chegado ao fascismo – eu explico para a Tatiana.
Ela e eu fomos colegas no Curso de História, na UFRGS, e nosso primeiro exercício de pesquisa histórica foi a respeito da criação da primeira estrada de ferro no Rio Grande do Sul. Leitura das atas da Assembleia Provincial. As primeiras discussões a respeito da construção da ferrovia. Os deputados discutem sobre a necessidade de favorecer o transporte de gado das estâncias da Campanha para as charqueadas de Pelotas e logo depois o assunto sai de pauta. Provavelmente porque os estancieiros avisaram os nobres deputados que uma estrada regular atrapalharia o contrabando de gado com o Uruguai. Às vezes valia mais à pena negociar com os hermanos do que com os charqueadores pelotenses.
Assim, a primeira ferrovia foi construída entre as cidades de São Leopoldo e Porto Alegre e é a partir daí que inicia a história da estrada de ferro no estado. E o modelo de estação ferroviária foi o mesmo utilizado nos Estados Unidos, isto é, com paredes revestidas de folhas de zinco para resistir às flechas dos índios.
Empresas estrangeiras investiram no setor e capitalistas belgas e norte-americanos aportaram por aqui. Em 1920 a ferrovia foi encampada pelo poder público. Borges de Medeiros, presidente do estado, pretendia atender a classe proprietária barateando o custo dos transportes e criou a Viação Férrea do Rio Grande do Sul.
É nesse contexto que meu avô imigrante chegou ao Rio Grande do Sul.
A Tatiana não me disse a data exata da greve (ou não lembro). Mas garantiu que o caso se passara em Santa Maria. Provavelmente nas oficinas do Km 3, nas quais as tias me garantiram que ele esteve ligado.
Tia Irani me disse, ainda, que em Santa Maria a família morou na Vila Belga, numa casa de esquina, na Rua André Marques com a Rua Manuel Ribas. E ela e outras irmãs estudaram na Escola de Artes e Ofícios Santa Terezinha, escola criada pela Cooperativa dos Ferroviários para as filhas dos seus associados.
Vila Belga, em Santa Maria. Casa onde meu avô morou.
Quando minha amiga relatou essa história, eu não conhecia Santa Maria. Naquela noite do telefonema, fiquei na janela da sala olhando a cidade. Morava no sétimo andar, devo ter bebido um cálice de conhaque e pensado na trajetória do avô... Mal sabia que meses depois prestaria concurso na Universidade Federal de Santa Maria (1989), e dois anos depois me estabeleceria na cidade.
Conheceria a Vila Belga – um conjunto de casas construídas a partir de 1905, pela direção da Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer, para os funcionários superiores da empresa – e fotografaria a casa em que o vô morou. Uma casa pequena para uma família tão grande, com mais de uma dezena de filhos, mas a tia Irani garantiu que todos moraram ali.
Um avô imigrante, um avô ferroviário – que não fechou com os grevistas e os denunciou.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Histórias de família (7)

Quando seu Vittorio desceu para o Sul, não sei se veio sozinho e depois trouxe a família ou se já desceu com mulher e filhos. Seja como for, isso deve ter ocorrido por volta de 1920. A maioria dos catorze filhos nasceu em São Paulo, mas o caçula - meu pai (Rubens), na cidade de Rio Grande, em 1924.
O vô morou nas cidades de Rio Grande, Santa Maria, Rio Grande novamente e depois Pelotas. Acredito que a ordem seja essa. Ele era funcionário da Viação Férrea desde que chegou ao Rio Grande do Sul e tornou-se engenheiro prático. Ou já ingressou na Ferrovia como engenheiro prático, não sei
Essa categoria profissional desapareceu dos quadros da Viação Férrea na década de 1940, quando passaram a predominar os engenheiros com diploma de curso superior. Meu pai se orgulhava dessa trajetória do Velho. O ensino superior era um privilégio das classes ricas e o Velho conseguiu a categoria de engenheiro sem cursar faculdade.
Meu pai foi o único dos irmãos a adquirir diploma de curso superior. Da Faculdade de Ciências Econômicas de Pelotas, que funcionava no Ginásio Gonzaga. Diploma de Perito Contador.
Várias vezes, em encontros familiares, ouvi os tios e tias se referirem jocosamente ao meu pai com “privilegiado”. O único com formação escolar completa. O caçula. Aquele que pode aproveitar o sucesso financeiro obtido pelo Velho no final da vida. Os outros só teriam feito o Primário, um ou outro concluído o Ginásio. O pai parece que se constrangia disso. De ter tido oportunidades que os irmãos não tiveram.
Mas isso são lembranças antigas. Meu pai morreu em 1978, com 53 anos. Eu tinha 22 anos e, quando conversávamos sobre a vida em geral, o meu entendimento do mundo era muito limitado.
Em maio de 78, quando ele faleceu, eu era professor de História recém formado e estava começando a trabalhar numa escola estadual em Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre. Até então nunca trabalhara regularmente. Vivia de mesada. Fazia trabalhos eventuais e não era fácil me manter desse jeito.
Afinal, na perspectiva de um imigrante e de seus descendentes, o trabalho é uma categoria fundamental, definidora. Quem não trabalha não come.
– Eu não sustento vagabundo – o pai nos dizia, dirigindo-se aos seus três filhos.
Quando fiz vestibular para o Curso de História – que ele não aprovava, queria que eu cursasse Direito – ele avisou:
– Se não entrares na Universidade, vais trabalhar.
Eu tinha 18 anos e estava mais do que na hora de encarar o batente (termo que ele gostava de empregar). O tipo de atividade que me esperava era o cartório, o comércio, talvez o banco. Nada que me interessava. Me empenhei ao máximo para ser classificado e obtive uma pontuação boa no vestibular da UFRGS. Me disseram que pela soma dos meus pontos eu poderia ter ingressado na Medicina, na Engenharia ou no Direito. 
Quando ele soube disso (que eu poderia ingressado no Curso de Direito) lascou um comentário cortante:
- Desperdiçaste uma chance.
Durante muito tempo, tive a impressão de que ele tolerava a minha vagabundagem, isto é, a minha condição de simples estudante, sem nenhuma atividade profissional. Eu estudava e fazia poemas. Publicava poemas em jornal (no Bric a Brac da Vida, do Correio do Povo), ganhava prêmios literários.
Um dia, fui substituir a secretária dele (que entrara em férias) na sala em que ele trabalhava no SulBrasileiro (hoje prédio do Santander, na esquina da Rua Sete de Setembro com Rua General Câmara) e encontrei de baixo do tampo de vidro da sua mesa os meus poemas publicados.
Acho que ele se orgulhava do filho metido a literato, vagabundo, arisco em relação ao trabalho, enfiado no movimento estudantil universitário, mas que gostava de livros, cinema e música erudita. A tal da cultura - que ele prezava tanto.
Juntos reviramos várias vezes a trajetória do seu Vittorio e procuramos compreender a sua travessia: Itália – São Paulo – Rio Grande do Sul. Adria, fazenda de café paulista, Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Uma família de inúmeros filhos. Surras homéricas para endireitar os rebentos. Surras que faziam parte da pedagogia do seu Biasoli.
Meu pai, a muito custo – e muita conversa da minha mãe –, largou de mão essa pedagogia. Apanhei pouco. Não lembro mais. A mãe era contra.
Acho que seu Vittorio era isso: um homem duro. Foi com determinação que saiu da lavoura, tornou-se mecânico, ferroviário, fez filhos e mais filhos, e "nunca deixou que faltasse nada para a família", diziam as tias. Mas tinha de trabalhar, merecer – isso todos repetiam.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Histórias de família (6)

No final dos anos 90 estive na Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, e havia terminais de computador para se digitar o nome dos antepassados e se obter informações a respeito dos mesmos. Quando chegaram, com que idade, qual profissão e até o nome do navio.
Eu digitei o nome do avô – Vittorio Biasoli – e não encontrei coisa alguma. Fiz várias tentativas, mudei um pouco a grafia e nada.
Anos depois um sobrinho – Rubens Ernesto – conseguiu encontrar o registro, não sei como. O nome da família tinha sido abrasileirado (alguns preferem dizer “adulterado”), meu sobrinho descobriu isso e achou o registro na hospedaria. O sobrenome que a família do vô trazia, quando aportou no Brasil, era Biasioli.
Como se deu a mudança? Não sei. Na certidão de casamento ainda está o nome original. Na certidão de óbito não, o nome já está alterado.
A hipótese mais provável é de que tal mudança se deu em função da naturalização do avô, durante o Estado Novo. Pressionado pela política de nacionalização de Vargas, talvez incomodado com a suspeita de ser um quinta-coluna (durante a Segunda Guerra Mundial), seu Vittorio mudou de nacionalidade, abrasileirou-se.
Conversando com meu pai na década de 70, eu soube desse processo de naturalização do avô. Mas não fazia ideia de que ele alterara a grafia do nome.
Nós conversávamos sobre o período da guerra e o pai contava que seu Vittorio sempre teve simpatia por Mussolini. Era um fascista? Provavelmente não. Era um homem autoritário na família, no trabalho, e um conservador nos costumes. No campo político, o que é certo é que não possuía nenhuma simpatia pelo anarquismo e socialismo. O que o pai e o tio Victor acentuavam era a simpatia por Mussolini, não propriamente pela ideologia fascista. Pela figura do líder que reergueu a Itália. Estranhamente, as tias nunca comentavam isso.
O fascismo agradou muita gente quando surgiu na década de 1920 e se consolidou nos anos 30. Mussolini se fez primeiro-ministro e passou a mandar mais do que o rei. Barrou o avanço da esquerda, reorganizou a economia e a sociedade italianas e também ensaiou uma política colonialista na África. Com essas ações granjeou entusiasmos na Itália – inclusive na Igreja Católica – e no mundo inteiro.
Perón se empolgou com o fascismo. Vargas, mais discreto, também. Até Churchill fez referências elogiosas a Mussolini em determinado momento – Churchill, que nunca se enganou em relação a Hitler. O campo conservador, de modo geral, viu com bons olhos aquele que hoje temos a imagem de bufão.
O que dizer então de velhos italianos pelo mundo afora, que um dia se viram obrigados a abandonar a terra natal e buscar oportunidades na América? Oportunidades que sua terra de origem foi incapaz de lhes proporcionar e que depois, com Mussolini, parecia capaz.
No Brasil, foram muitos os simpatizantes de Mussolini entre os imigrantes e seus descendentes. Muitos deles sem muito entendimento da ideologia. Empolgavam-se com a terra natal se destacando no cenário internacional, crescendo economicamente, disputando com as potências europeias territórios da África como a Líbia e a Abissínia.
O vô Vittorio talvez se enquadrasse nesse perfil. Tio Victor contava que ele sintonizava o rádio na emissora oficial do Duce e ouvia as notícias do governo da Itália. Durante a guerra, como o Brasil era adversário de Mussolini, o vô ligava o rádio com o volume bem baixo para os vizinhos não escutarem.
Tio Victor, por sua vez, sintonizava na BBC, colocava o volume bem alto para escutar as notícias dos Aliados e sabia que ele não reclamaria.
– O Velho se calava, engolia – o tio comentava, rindo.
E fiquei com a impressão de que nenhum dos quatro filhos homens acompanhou o pai na simpatia ao Duce. Todos eles penderam para o campo dos Aliados. Tio Cléo esteve a ponto de embarcar como integrante da FEB... Essa última informação surgiu numa conversa entre meu pai e tio Henrique (nos anos 70, P. Alegre, apartamento da Rua Sete de Abril), mas ficou vaga. Nenhum dos dois tinha certeza. Só recordo o tio Henrique afirmando:
– A guerra é uma coisa terrível.
E contou que participou de um batalhão gaúcho na guerra contra São Paulo (Revolução Constitucionalista de 1932), que sua tropa ficou vagando sem alimentação no território paulista, que eles só tinham laranjas para comer, e não disse mais nada. Da sua experiência de militar, só falou isso.
Na verdade, nem garantiu que foi na Revolução Constitucionalista que ele combateu. Eu sugeri esse episódio e ele disse que sim, talvez.
– A guerra é uma coisa terrível – ele só tinha certeza disso.
Quando voltei a Hospedaria dos Imigrantes, em 2016, não encontrei os terminais de computador. Nem tive acesso aos arquivos com os registros dos imigrantes. O setor de arquivos estava fechado naquele dia.
Dormitórios. Hospedaria do Imigrante.
A hospedaria estava reformada e entre as novidades havia um espaço que recriava os antigos dormitórios. Várias camas beliches uma ao lado da outra, lençóis brancos, levando o visitante a imaginar o que os imigrantes tinham pensado ou sonhado, quando deitados naquelas camas... Quantas angústias, sonhos, e expectativas.

domingo, 26 de abril de 2020

Histórias de família (5)

Quando me deparei com a coleção de estátuas romanas no Museu do Vaticano, senti como se voltasse à infância. O poeta Sílvio Duncan, nos anos 80, já tinha me avisado: ao envelhecer, a infância volta como se fosse um filme. Não é preciso se esforçar, ela vem.
Foi isso que ocorreu comigo num dos corredores do Museu do Vaticano. Lembrei de quando tinha 10 anos de idade e o pai contava que meus avós eram italianos... Na minha imaginação de menino, eles deviam saber tudo sobre Roma Antiga. Conhecer as ruínas, saber a história...
Museu do Vaticano. Espaço reservado às esculturas romanas.
Um dia perguntei mais ou menos isso para a tia Irani – se meus avós conheciam História Antiga – e ela riu.
– Isso é coisa de gente estudada, Vitinho. Eles não eram. – Ela falou. – Mamãe gostava de ópera. Se tem uma ópera com imperadores e madonas, aí talvez ela soubesse.
Seja como for, minha cabeça de menino inventou histórias fantásticas e até hoje elas me conduzem. Quando criança, em Pelotas, meu pai me levava ao cinema e assistíamos muitos filmes de temática histórica. A queda do Império Romano foi um dos meus preferidos. Épico hollywoodiano sobre o governo de Cômodo.[i]
Guri dado a fantasias, achava que uma história com aquela grandeza na certa qualquer pessoa que nascera na Itália conhecia... O pai nunca me desmentiu (na verdade, nunca soube dessas bobagens do filho) e me apresentou O Tesouro da Juventude, os fascículos do Conhecer e foi por aí que comecei a ler sobre a Roma Antiga.
No Vaticano, diante da estátua do imperador Augusto, lembrei disso tudo. A infância como se fosse um filme. Os joelhos afrouxaram. Se tivesse um banco, me sentaria. Mas aguentei firme, de pé, e saquei várias fotos como qualquer turista.
Conto essa história para deixar evidente o sentimento que embala essas memórias. Meus avós eram lavradores. No documento de entrada no Brasil, na Hospedaria dos Imigrantes, está registrado que Vittorio, 14 anos, tinha a profissão de lavrador – o mesmo registro em relação aos seus pais (Vincenzo, 37 anos, Oliva, 34) e até sua irmã Antonietta, 3 anos. Na certidão de casamento, na cidade de Tietê, em São Paulo, Vittorio já consta como mecânico, mas sua esposa, Santa, continua lavradora.
Mas na minha imaginação de menino, muito mais do que simples camponeses, eles são herdeiros do Império Romano e por aí afora. Fantasias de guri das quais nunca me livrei e que estão nos alicerces dessas histórias de família que vou narrando.



[i] A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO. Direção de Anthony Mann. EUA, 1964, 188 min. Cômodo assassina o pai (Marco Aurélio) e se torna imperador. Segundo o filme, o fim do governo despótico de Cômodo é o início da decadência do Império.

sábado, 25 de abril de 2020

Histórias de família (4)

Um dia um primo contou que o filho dele foi a Adria visitar a terra do nosso avô. Queria se encontrar com os Biasoli – na verdade, Biasioli, a grafia italiana do nosso nome, que foi alterada com o tempo – e ninguém quis falar com ele. Conversou com um padre e esse foi categórico:
– Aqui ninguém quer contato com os parentes da América.
Depois eu soube que isso é comum. Alguns italianos que emigraram, foram para a Argentina, Brasil, Estados Unidos, voltaram (ou voltaram seus descendentes) e questionaram a forma como seu deu a herança. Quiseram saber com quem ficou a propriedade rural, a casa de pedra, o açougue, coisas assim.
Os que emigravam saiam apressados das suas aldeias, fazendo festa, em cortejo acompanhado por banda de música – como descreve Pozenato, no romance A Cocanha - e na certa não se preocupavam com detalhes. Ora, a herança!
“Eles vão para a América e pensam estar agora livres dos senhores e da polícia, dos contratos não cumpridos, da miséria e da fome.” Depois, na hora do embarque, em Gênova, novo alvoroço, “alarido de choro, gritos e risadas”. Addio Italia, addio per sempre, gritavam. Addio fame, addio miséria.[i]
Anos depois, com a cabeça fria, esses italianos e descendentes lembravam dos parentes que ficaram na Itália, faziam o levantamento dos bens deixados para trás e talvez se incomodassem. Muitos voltaram, questionaram a partilha dos bens familiares... e deixaram ressentimentos. Mas isso não aconteceu com meus avós.
Mais de uma vez conversei com minha mãe (vó Lêdinha) a respeito disso e nunca soube nada a respeito de Vincenzo e Oliva (os pais de Vittorio, os meus bisavós). Muito menos dos que ficaram na Itália. Vó Lêdinha conheceu seu Vittorio, dona Santa (esse era o nome da vó, Santa Marcon, nome de solteira) e eles não falavam dos parentes.
– Deve ter acontecido alguma coisa – a mãe contava. E especulava: – Teu avô foi um homem difícil, talvez tenha brigado com Deus e o mundo. Quando eu casei com teu pai, em 1950, ele tinha amansado. Era muito bom comigo. Tua vó morreu um tempo depois, ele ficou doente e ajudei a cuidar dele.
O vô e a vó começaram a vida de casados em Tietê, em 1895, e nesse período não eram mais colonos de fazenda. O vô trabalhava numa companhia de navegação fluvial, enquanto a vó, ao que tudo indica, era exclusivamente dona de casa.
O vô viajava pelo Rio Tietê, pegava o Rio Paraná, ia até o Mato Grosso e fez essa viagem várias vezes. Até que pegou malária, contraiu a doença mais de uma vez e sofreu por conta disso. Dores horríveis.
– Ouvia teu avô gritar, Vitinho. Eu era criança – contava a tia Irani – e ficava assustada. Todo mundo corria pela casa para atender o Papai. Ele pegou malária uma, duas, três vezes, até que o médico disse que não podia mais reincidir.
Não sei se alguém pode pegar malária mais de uma vez – mas é assim que eu lembro a tia contar. Na sala do apartamento dela, em Porto Alegre (num prédio na Avenida Ramiro Barcelos, na frente do Hospital de Clínicas), a tia me servindo doce e perguntando.
– Queres mais doce de abóbora?
– Quero sim – e eu repetia uma, duas vezes as conservas feitas por ela, uma de abóbora, outra de pêssego, só para provar. A tia era uma cozinheira de mão cheia. E ela falando que o vô gritava durante a noite, sofria, tinha convulsões.
– Aí o médico chamou a Mamãe e falou que ele precisava viver num lugar onde a malária não existisse. Se ele fosse infectado novamente, morreria.
– Foi um desespero – ela continuava. – Mamãe perdeu o tino. Chorava.
É assim que eu lembro. A tia Alice e a tia Landa confirmaram a doença, sem maiores detalhes. Era malária mesmo? Não sei.
Quando contei para a mãe, ela falou que era uma doença tropical, dessas que acometem os povos do centro do País, na Floresta Amazônica.
– Naquele tempo não era comum um diagnóstico preciso – a mãe ponderava. – Mas foi por motivo de saúde que ele deixou São Paulo e veio para o Rio Grande do Sul. Um clima melhor ou diferente. Novos ares.
E as tias me garantiram:
– Foram os patrões do teu avô que acertaram a vinda dele para a Viação Férrea, no Rio Grande do Sul. Os chefes de uma e de outra tinham ligações. Eram empresas de capital estrangeiro e o acerto se deu dessa maneira.
Calculo que isso ocorreu no final da década de 1910. (Cálculo que refaço todas as vezes que conto essa história.) Os belgas já tinham perdido o controle acionário da Ferrovia, no Rio Grande do Sul, e passado para os norte-americanos – vinculados a uma holding de Percival Farquhal, que tinha investimentos nas ferrovias paulistas, que controlava a companhia que construía a estrada de ferro entre São Paulo e Rio Grande do Sul, entre as cidades de Itararé e Santa Maria.
Nesta época (década de 1910) o vô talvez já deixara a navegação e atuava em alguma ferrovia paulista. Quem sabe trabalhasse na Sorocabana, vinculada aos investimentos de Farquhal, não sei. Divagações de um professor de História...
Seja como for, vale o relato das tias. História familiar se reconstrói na base de relatos orais – sempre questionáveis pela historiografia acadêmica. Mas história familiar é isso: memória, narrativa emocional, beirando o relato mítico. No caso de uma família de imigrantes, a aproximação me parece com os mitos de travessia, de viagem marítima. Ulisses buscando sua casa depois da Guerra de Tróia. E nós, os descendentes, forjados na tradição de Telêmaco (o filho de Ulisses), buscando reconstruir a trajetória do Patriarca.
Assim, se o vô desembarcou no porto de Santos com uma mão na frente e outra atrás, com 14 anos de idade – viagem subsidiada, mão-de-obra barata para a cafeicultura –, não foi dessa maneira que desceu para o Sul. Com mais de 40 anos, tornara-se um trabalhador qualificado. Ingressou na Viação Férrea e alcançou a posição de engenheiro prático.
Meu pai se orgulhava disso:
– Teu avô não fez faculdade. Aprendeu trabalhando. Se tornou engenheiro dessa maneira.
Um imigrante que ascendeu social e economicamente. Sustentou uma família de 14 filhos. E nunca voltou a Itália. Não reivindicou parte da pequena propriedade rural que talvez seus avós tivessem. Não sei. Tenho a impressão de que meu pai sabia. Sabia que seu pai, Vittorio, desdenhou o passado rural de seus antepassados e que sua trajetória de lavrador a engenheiro prático foi a sua grande conquista. A sua travessia.
E talvez isso os Biasioli da Itália sequer desconfiem. Provavelmente nem se interessem.



[i] POZENATO, José Clemente. A Cocanha. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2000. 1º vol. da trilogia sobre a imigração italiana no Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Histórias de família (3)

Quando meus avós paternos chegaram da Itália, foram trabalhar em fazenda de café, em São Paulo. O vô desembarcou em Santos, em agosto de 1888, depois subiu para a cidade de São Paulo; a vó, eu não sei. Os dois se conheceram no eito, contou uma tia. Era hora do almoço, os trabalhadores se ajeitaram debaixo dos cafezais, abriram os embrulhos onde estava a refeição e foi aí que começaram os olhares. Um namoro de olhares e bilhetes. Pouca conversa. Namoro que se dava durante o serviço no cafezal. Talvez durante a colheita... As mãos de um e de outro arrancando os grãos vermelhos dos pés de café e enchendo os cestos.
Mas essa última parte (a da colheita) já é imaginação minha. Ou talvez de alguma tia, não sei, quem sabe a tia Landa, Alice ou Irani – as tias com as quais conversei sobre o assunto. Com a tia Landa (Iolanda), a conversa era na cozinha da casa que foi do vô Vittorio, em Pelotas, nos anos 80. Nós dois ao redor da mesa, comendo galinha com arroz e bebendo cerveja preta. Cerveja preta era a que ela mais gostava. Uma tia pequeninha, anã, que os sobrinhos adoravam. Demos muita gargalhada, os dois.
– Era tudo muito difícil naquela época – ela contava. – Eles trabalhavam muito. Depois casaram, tiveram catorze filhos e sempre as gurias mais velhas eram designadas a cuidar dos mais novos. Cada filha mais velha responsável por um mais novo. Era assim que funcionava. Teu pai, o Rubens, era responsabilidade da Irani.
Depois ela parava, ficava pensando, olhava pra mim e ria:
– Como a gente trabalhava, Vitinho. Nem imagina.
Trabalhavam, mas também se divertiam. O pai contava que os irmãos corriam pela casa, corriam atrás da tia Landa e ela – tão pequenininha, anãzinha – passava chispando por baixo da mesa, sem precisar se agachar.
– Era difícil pegar ela – o pai explicava.
Mas estou desviando o assunto. Volto ao namoro do vô e da vó no cafezal – em Sorocaba talvez. Um pouco depois eles se casaram e foram viver na cidade de Tietê. Ele com 22 anos, mecânico; ela com 17, lavradora. É assim que está escrito na certidão de casamento, de 1895.
– E como é que saíram da fazenda? – eu perguntava. Mas nunca ninguém soube responder. As tias não sabiam.
O tio Victor, que eu vivia pedindo para me contar o que sabia, ficou protelando, protelando e não deu tempo. Um dia a Carmen Lúcia, a filha dele, me telefonou para dizer que ele ia falar, que eu podia vir, vamos marcar (ele morava em Pelotas, eu já estava em Santa Maria), mas naquela semana ele morreu. Dormindo. E levou todas as suas histórias consigo.
Nas conversas com o pai, esse assunto nunca foi tocado. A saída de um imigrante da fazenda (um imigrante que viajou financiado pelo governo para servir como mão-de-obra para os fazendeiros paulistas) não era problematizada. Eu só soube dessa história depois, isto é, que não era fácil os colonos deixarem as fazendas. Os proprietários faziam de tudo para retê-los. Havia uma legislação que obrigava os imigrantes a ficarem nas fazendas (pelo menos durante um certo número de anos). Então, muitas vezes, os colonos fugiam.
O vô e a vó fugiram? Não sei.
Ele era mecânico. O pai contava que ele sempre gostou de máquinas. Aprendeu a lidar com isso na fazenda. As fazendas paulistas tinham um setor de beneficiamento do café, com secadores, descascadores, ventiladores. Havia uma indústria agrícola próspera, com muitas invenções e melhoramentos de equipamentos.
Não sei como meu pai e eu conversávamos sobre isso. Eu era estudante de História (1974-77), lia sobre a expansão da cafeicultura em São Paulo, o pai ouvia e reorganizava as suas lembranças com as informações que eu passava.
Como é que o vô deixou de ser colono que trabalha no eito (essa era uma expressão que as tias gostavam, para se referir ao trabalho na terra) e passou a atuar no setor de beneficiamento?
Imagino que cheguei a conversar isso com o pai. Ele não soube responder. Minhas tias também não – mas garantiram que o vô e a vó se conheceram no cafezal, durante o serviço. Um namoro de olhares e bilhetes. Pouca conversa. E depois casaram.
– Tua vó era muito mocinha – a tia Landa falava. As outras tias confirmavam. Todas diziam que ela começou muito cedo. – Quando abriu os olhos, já tinha uma penca de filhos – concluía a tia Landa. E ria. Ela tinha um sorriso enorme.