sexta-feira, 24 de abril de 2020

Histórias de família (3)

Quando meus avós paternos chegaram da Itália, foram trabalhar em fazenda de café, em São Paulo. O vô desembarcou em Santos, em agosto de 1888, depois subiu para a cidade de São Paulo; a vó, eu não sei. Os dois se conheceram no eito, contou uma tia. Era hora do almoço, os trabalhadores se ajeitaram debaixo dos cafezais, abriram os embrulhos onde estava a refeição e foi aí que começaram os olhares. Um namoro de olhares e bilhetes. Pouca conversa. Namoro que se dava durante o serviço no cafezal. Talvez durante a colheita... As mãos de um e de outro arrancando os grãos vermelhos dos pés de café e enchendo os cestos.
Mas essa última parte (a da colheita) já é imaginação minha. Ou talvez de alguma tia, não sei, quem sabe a tia Landa, Alice ou Irani – as tias com as quais conversei sobre o assunto. Com a tia Landa (Iolanda), a conversa era na cozinha da casa que foi do vô Vittorio, em Pelotas, nos anos 80. Nós dois ao redor da mesa, comendo galinha com arroz e bebendo cerveja preta. Cerveja preta era a que ela mais gostava. Uma tia pequeninha, anã, que os sobrinhos adoravam. Demos muita gargalhada, os dois.
– Era tudo muito difícil naquela época – ela contava. – Eles trabalhavam muito. Depois casaram, tiveram catorze filhos e sempre as gurias mais velhas eram designadas a cuidar dos mais novos. Cada filha mais velha responsável por um mais novo. Era assim que funcionava. Teu pai, o Rubens, era responsabilidade da Irani.
Depois ela parava, ficava pensando, olhava pra mim e ria:
– Como a gente trabalhava, Vitinho. Nem imagina.
Trabalhavam, mas também se divertiam. O pai contava que os irmãos corriam pela casa, corriam atrás da tia Landa e ela – tão pequenininha, anãzinha – passava chispando por baixo da mesa, sem precisar se agachar.
– Era difícil pegar ela – o pai explicava.
Mas estou desviando o assunto. Volto ao namoro do vô e da vó no cafezal – em Sorocaba talvez. Um pouco depois eles se casaram e foram viver na cidade de Tietê. Ele com 22 anos, mecânico; ela com 17, lavradora. É assim que está escrito na certidão de casamento, de 1895.
– E como é que saíram da fazenda? – eu perguntava. Mas nunca ninguém soube responder. As tias não sabiam.
O tio Victor, que eu vivia pedindo para me contar o que sabia, ficou protelando, protelando e não deu tempo. Um dia a Carmen Lúcia, a filha dele, me telefonou para dizer que ele ia falar, que eu podia vir, vamos marcar (ele morava em Pelotas, eu já estava em Santa Maria), mas naquela semana ele morreu. Dormindo. E levou todas as suas histórias consigo.
Nas conversas com o pai, esse assunto nunca foi tocado. A saída de um imigrante da fazenda (um imigrante que viajou financiado pelo governo para servir como mão-de-obra para os fazendeiros paulistas) não era problematizada. Eu só soube dessa história depois, isto é, que não era fácil os colonos deixarem as fazendas. Os proprietários faziam de tudo para retê-los. Havia uma legislação que obrigava os imigrantes a ficarem nas fazendas (pelo menos durante um certo número de anos). Então, muitas vezes, os colonos fugiam.
O vô e a vó fugiram? Não sei.
Ele era mecânico. O pai contava que ele sempre gostou de máquinas. Aprendeu a lidar com isso na fazenda. As fazendas paulistas tinham um setor de beneficiamento do café, com secadores, descascadores, ventiladores. Havia uma indústria agrícola próspera, com muitas invenções e melhoramentos de equipamentos.
Não sei como meu pai e eu conversávamos sobre isso. Eu era estudante de História (1974-77), lia sobre a expansão da cafeicultura em São Paulo, o pai ouvia e reorganizava as suas lembranças com as informações que eu passava.
Como é que o vô deixou de ser colono que trabalha no eito (essa era uma expressão que as tias gostavam, para se referir ao trabalho na terra) e passou a atuar no setor de beneficiamento?
Imagino que cheguei a conversar isso com o pai. Ele não soube responder. Minhas tias também não – mas garantiram que o vô e a vó se conheceram no cafezal, durante o serviço. Um namoro de olhares e bilhetes. Pouca conversa. E depois casaram.
– Tua vó era muito mocinha – a tia Landa falava. As outras tias confirmavam. Todas diziam que ela começou muito cedo. – Quando abriu os olhos, já tinha uma penca de filhos – concluía a tia Landa. E ria. Ela tinha um sorriso enorme.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Histórias de família (2)

Geralmente os descendentes de imigrantes italianos, esses que vieram durante o período imperial e o início da República, com uma mão na frente e outra atrás, são muito orgulhosos da sua origem. Eu não fujo à regra.
O pai contava que a vó lia revistas em italiano (possivelmente as que eram produzidas no Brasil antes da política de nacionalização de Vargas) e as guardava debaixo do colchão. Ela gostava muito de canto lírico, acompanhava a vida das cantoras de ópera, a trajetória das grandes companhias – mas não lia em português.
– Só foi alfabetizada em italiano – o pai explicava.
– Chegou no Brasil mocinha – me disse uma tia. – Já tinha frequentado a escola e não iria assistir aula novamente.
Mas fiquei com a impressão de que, na verdade, ela nunca quis aprofundar o seu conhecimento da língua portuguesa. Falava a língua que se falava no Brasil e pronto. Leitura era outra coisa. Pra isso existia o italiano.
Quando Vargas implantou o Estado Novo, a política de nacionalização e, especialmente, quando declarou guerra ao Eixo, em 1942, ela passou a esconder as revistas debaixo do colchão e não se tocava no assunto. A edição de jornais e revistas em italiano, em São Paulo, Caxias, Porto Alegre, foram proibidas e não pegava bem andar com esse material. O sujeito encontrado com revistas em italiano poderia ser considerado um quinta-coluna e ter de dar explicações ao delegado.
Em alguns lugares, italianos e descendentes foram presos porque falavam ou cantavam em italiano – muitas vezes em dialeto, no caso das colônias do Rio Grande do Sul. O vô e a vó, nessa época (do Estado Novo, da Segunda Guerra Mundial), moravam em Pelotas e não sei de italianos ou descendentes que tenham sido presos na cidade.
Mas em agosto de 1942 (em resposta aos afundamentos de navios brasileiros por submarinos alemães na costa do Nordeste) ocorreram depredações de lojas, hotéis e residências de italianos e alemães em várias cidades brasileiras – inclusive em Pelotas. Meu pai nunca falou nisso. Nem nenhum dos meus tios ou tias tocou no assunto – e isso que eles eram catorze (meu pai era o caçula, o décimo quarto). Mas deve ter sido um acontecimento que marcou todos eles.
Pelo que o pai contava, a vó nunca mais tirou as revistas debaixo do colchão. Aquilo era um tesouro, o mundo que a fazia sonhar (suposição minha). E um tesouro (o mundo operístico) que o pai me ajudou a apreciar.
Quando lembro dele escutando La Traviata ao lado da eletrola, os olhos marejados, acho que não era só a música de Verdi que o emocionava. Era a lembrança da mãe (minha vó).
– Ela gostava muito – ele me disse certa vez, quando me pegou escutando um disco com trechos de Aída. Um disco de uma coleção de banca de revista que ainda guardo em algum lugar.
No ano passado, quando assisti La Traviata em Roma (no Salone Margherita), lembrei disso tudo. Era um teatro de poltronas vermelhas, próximo a Piazza di Spagna, com cantores e músicos muito bons. Uma produção que seguia o padrão tradicional: os cantores-atores com roupas de época e nenhuma modernização de cenário ou em outra coisa. Espetáculo pra turista não botar defeito.

Salone Margherita. Roma, outubro de 2019.

Interior do Salone Margherita.
Lembrei o pai, a mãe e também a vó materna que não conheci. Os três adorariam estar ali. Estranhamente, o vô não fez parte dessa memória.
– Era um homem duro – a mãe disse várias vezes. O pai nunca se referia a ele quando falávamos sobre o interesse da vó por cantoras líricas e espetáculos operísticos (que ela só conhecia do rádio e das revistas, provavelmente).
Quando o espetáculo terminou, sai caminhando pelo centro histórico de Roma e fui dando voltas até a Fontana di Trevi. As ruas praticamente vazias naquela hora da noite.
Descendentes de imigrantes italianos geralmente são assim: sentem-se orgulhosos da sua origem. E acham, mesmo que seus avós tenham vindo com uma mão na frente e outra atrás, que têm alguma coisa com o grande mundo italiano, sua história, sua arte e sua música.
Um tesouro que guardamos com carinho – alguns de nós, escondendo debaixo do colchão; outros, escancarando de modo desavergonhado e fazendo crônicas a respeito.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Histórias de família (1)

Histórias de família se perdem. Os netos, por exemplo, raramente sabem a trajetória dos seus avós e bisavós. Eu pouco sei. Meu pai morreu quando eu tinha 22 anos e hoje, com 64, às vezes embaralho as histórias que ele contava relativas aos meus avós paternos.
Eles vieram da Itália, no final do século XIX, e se conheceram em São Paulo, numa fazenda de café. O vô era do norte, da região do Vêneto, da cidade de Adria. A vó era do sul, mas eu nunca soube de qual localidade. Calábria? Uma vez ouvi alguém especular a respeito.
Ambos trabalharam em fazendas de café, no estado de São Paulo, que era o destino da maioria dos imigrantes italianos que chegavam ao Brasil, no final do século XIX e início do XX. Mão de obra para substituir o trabalho escravo. Mão de obra barata. Segundo um fazendeiro paulista, 1/3 mais barata que a de um escravo.
O vô chegou em agosto de 1888. Tinha catorze anos. Desembarcou no porto de Santos, subiu de trem até a cidade de São Paulo e foi hospedado na Hospedaria do Imigrante. Vinha com o pai, a mãe e uma irmã de três anos de idade. A família passou alguns dias na Hospedaria e logo foi para Sorocaba, para trabalhar numa propriedade da família Prestes.
Hospedaria do Imigrante, em São Paulo (2016).
Uma tia contou que eles (a família do meu avô) ficaram muito espantados quando souberam que as casas onde moravam, na fazenda, fora moradia de negros. Negros escravos. A figura do negro tinha alguma coisa de pavorosa para eles. Provavelmente a escravidão também – que tinha sido extinta meses antes deles se estabelecerem em Sorocaba.
Tempos atrás eu visitei uma fazenda de café paulista – Fazenda Santa Maria do Monjolinho, em São Carlos – e conheci as tais senzalas reformadas para receber as famílias italianas. As senzalas divididas em “apartamentos” de dois quartos, sala e cozinha. Um padrão de habitação provavelmente inferior à moradia dos camponeses no Vêneto.
Faço essa comparação lembrando as casas dos pastorinhos de Fátima, em Portugal, que estão preservadas (e visitei em 2012). Moradias da década de 1910, de simples camponeses portugueses – que imagino semelhantes às dos camponeses italianos do final do XIX. Casas de paredes de pedra, com assoalho de madeira, tudo muito rústico, mas visivelmente superior a uma senzala reformada, de paredes de tijolos e assoalho de chão batido.
Antiga senzala da Fazenda Santa Maria do Monjolinho, em São Carlos (2016).

Interior da senzala, reformada para receber os imigrantes (2016). O assoalho de tijolo
foi colocado muito depois, segundo a guia da fazenda.
O pai contava que eles viviam da terra, na Itália. Pequena propriedade rural que não dava para grande coisa. Mas que garantiu que o avô estudasse e fosse alfabetizado. Um dia, ele jogou um tinteiro no professor e foi expulso da escola.
Essa última história o pai contou no final de um almoço de domingo, enquanto nós dois terminávamos o vinho. Meus dois irmãos já tinham saído da mesa, a mãe retirava os pratos e às vezes fazia um comentário, acrescentava um detalhe.
O vô fora expulso da escola e obrigado a trabalhar. Um dos serviços fora o de servente de obra. No caso, de construção de pontes na cidade de Veneza – não muito distante de Adria.
Uma das funções do avô era carregar os pregos (ou parafusos) para os operários colocarem nas vigas de ferro que constituíam as pontes. O pai contava isso como se fosse uma história engraçada. Um dia o tio Victor contou a mesma história e o tom era o mesmo: o de um caso divertido.
O cômico, para eles, talvez fosse imaginar o velho Vittorio (esse o nome do meu avô), então um menino de 10 ou 12 anos, carregando um prego (ou parafuso) por meio de uma espécie de pinça e cuidando para não cair. O prego (ou parafuso) fora aquecido, estava muito quente, e precisava chegar desse jeito até o operário que o esperava para colocar entre as vigas de ferro.
– O velho tinha que se equilibrar na ponte em construção – dizia meu pai – e cuidar para não se queimar nem deixar a peça cair.
A graça estava aí: o velho, então um menino, passando um perrengue danado. Equilibrando-se numa ponte em construção, “piando fino” - expressão que meu pai gostava de usar para se referir a alguém passando por uma situação difícil. Adulto, Vittorio se tornou um homem severo, exigente, que deu surras homéricas (de cinta) nos filhos.
Histórias de família se perdem. Quando lembradas, são servidas em porções pequenas, que mudam de feitio ao sabor do vento.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas

Vou narrando como lembro. A memória anda tirando coisas do fundo do baú, nem sempre são lembranças confiáveis - muitas vezes estão envoltas em névoas -, mas, como tenho medo de perdê-la, vou registrando-as como surgem.
Hoje lembrei da primeira vez que estive no Rio de Janeiro. Julho de 1975. Viajava sem um roteiro certo. A ideia era chegar em Ouro Preto. Saí de Porto Alegre com umas amigas e nossa primeira parada foi em Garopaba. De ônibus. O ônibus não entrava em Garopaba, nos deixou na beira da estrada e depois pegamos carona. Nos hospedamos no Hotel Lobo.
Engraçado que éramos quatro e só lembro daquela que era minha colega na universidade. Mas não digo o nome. Ela não quer. Um dia contei uma história que nós vivemos e recebi a cobrança:
– Pô, Vítor, não conta uma coisa dessas.
Vou acatar o pedido. Mas lembro bem dela. Era muito bonita. As outras duas gurias eram suas amigas e recordo de todos nós, juntos, tomando o café da manhã no Hotel Lobo. Todos os hóspedes do hotel reunidos em torno de uma única mesa. Havia um prato com frios (presunto, salame, essas coisas) e um dos hóspedes disse que não comia carne e fez uma pregação vegetariana. Nós ficamos ouvindo. Eu, sem coragem de pegar uma fatia de presunto e colocar no sanduíche.
De repente um outro hóspede – um magrão, como se dizia – se vira pra mim e diz:
– Me passa esse cadáver que eu vou encarar.
Eu alcancei o prato de presunto e logo depois também peguei uma fatia para mim.
Não lembro do resto do passeio na praia. Era inverno. De lá fomos para São Paulo, depois Rio de Janeiro.
Quando chegávamos nessas cidades, nos dispersávamos. Cada um procurava uma casa de parente para se hospedar. No Rio, eu tinha um endereço perto da Lagoa Rodrigo de Freitas e fui até lá. Era um prédio sofisticado, mas não havia porteiro eletrônico e portaria estava vazia. Fui entrando, bati na porta do apartamento, ninguém atendeu e fui embora.
Como era início da tarde, fiquei na beira da lagoa e me recostei debaixo de uma árvore. Bateu o sono e dormi. Quando acordei, entardecia e achei a paisagem muito bonita. Cenário de filme.
Quando lembro disso – que dormi na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, com a mochila ao lado e que me acordei são e salvo, com a mochila intacta, tenho a impressão de que vivi um Rio que não existe mais.
Lembrei disso quando estive em Copacabana, no verão de 2020, e a Lagoa Rodrigo de Freitas era um dos meus caminhos. Um dia, minha companheira e eu fomos visitar a Casa Museu Eva Kablin, próxima à lagoa, e recordei a cena: um mochileiro dos anos 70, sesteando nas margens da lagoa. O que eu esperava da vida?
Deitado na beira da lagoa, dormindo o sono dos justos, na certa eu achava que a vida seria fácil, muito fácil. Que tudo seriam flores, como ironizava meu pai, tentando me fazer enxergar a dureza da vida. Me enganei redondamente. Mas naquele dia deu certo, isto é, naquele dia me dei bem.
Não lembro se voltei ao apartamento daqueles parentes bacanas. Sei que fui procurar o apartamento de uma tia-avó no Flamengo. Ela morava com a filha e o genro. O neto era atleta. Mas aí seria outra história. Deixo para a próxima.
Dessa vez é só a cena da soneca na beira da lagoa. Uma bela sesta. Me revitalizou. Encontrei pousada na casa da tia e depois segui para Minas Gerais. Apenas minha amiga e eu. As outras duas já tinham ficado em São Paulo.
          Pegamos um ônibus para Belo Horizonte, depois outro para Ouro Preto, e o que vivemos na cidade mineira foi muito legal. Deixou ótimas lembranças - essas coisas que se vive aos 20 anos e que ficam melhores com o passar dos anos.

domingo, 19 de abril de 2020

Turista brasileira em Varadero

Estive em Cuba em 2011 e me hospedei num hotel de Havana, no bairro Miramar, um local de embaixadas e hotéis internacionais, com casarões antigos (“pré-revolucionários”) e casas no estilo norte-americano dos anos 1950. Caminhando pelo bairro, tive a impressão de andar num território estadunidense e lembrei que não foi sem razão que o anti-imperialismo foi um dos vetores da luta revolucionária. Cuba era uma espécie de protetorado dos Estados Unidos.
Hotel Miramar. Havana.

          Recordo essa viagem por conta de um passeio que fiz a Varadero e de uma cena que assisti protagonizada por uma turista brasileira. Varadero é um dos locais mais importantes da indústria turística cubana e consiste numa série de resorts ao longo de uma praia paradisíaca. Eu tinha que conhecer o lugar e lá fui com minha companheira passar um dia.
Saímos de Havana de manhã cedo, voltamos ao anoitecer. Ao chegar fomos para a beira da praia e constatei que aqueles postais que vemos do Caribe... são verdadeiros. Eles não enganam. A areia é branca, o mar é azul. Todas as cores são intensas. Uma paisagem de cartão postal. É só clicar.
Infelizmente, apesar do dia de sol, o mar não estava para banho. A bandeira era vermelha e havia um enorme cartaz informando (em diversas línguas) a respeito de uma determinação internacional para as praias do Caribe segundo a qual os banhos de mar ficam proibidos quando a bandeira estiver vermelha. Devido ao repuxo, me explicou o salva-vidas.
Fiquei frustrado e molhei apenas os pés. Eu e a totalidade dos visitantes daquela pequena praia de um resort de Varadero. E digo pequena porque a praia era cercada por rochas. Uma extensão de areia de pouco mais de cem metros e sólidas rochas em cadda uma das pontas. Na areia, cadeiras de praia, umas armações cobertas com folhas de palmeira para servir como guarda-sol e um bar servindo quantos drinques o visitante quisesse. Território paradisíaco. Mas sem banho de mar naquela manhã de céu esplendorosa, sol brilhante e nenhuma nuvem.
Varadero.

          A proibição, no entanto, não valia para uma turista que caminhava dentro da água enquanto o filho (um guri de menos de dez anos) se banhava livremente, dando mergulhos invejáveis. O salva-vidas foi até ela explicar as normas da praia e ela respondeu, altivamente, que cuidava do menino. Que era seu filho e ela estava habituada. Nas praias brasileiras nunca ninguém lhe dizia o que tinha de fazer. E respondeu num português brasileiríssimo que não deixava dúvidas quanto a sua origem.
O salva-vidas (um professor de educação física) se esmerou em explicar o quanto o mar é traiçoeiro, mas não houve jeito. Ora o mar, ora as normas internacionais! A jovem senhora, escultural no seu maiô de duas peças, não se dobrava a qualquer argumento.
O rapaz se retirou, me viu observando a cena, sabia que eu era brasileiro e veio me dizer que isso era frequente.
– Alguns turistas não entendem – explicou. – E os piores são os russos e os brasileiros – acrescentou. – Se atiram dentro da água, dizem que está tudo sob controle, que eles sabem nadar, mas se o repuxo os carrega para o fundo não conseguem voltar sozinhos. Eu tenho de busca-los. E não pensa que é fácil.
Lembrei desse episódio porque tenho a impressão de que muitos brasileiros são assim: acham que podem descumprir as normas e se comportarem do mesmo modo como fazem em casa. Se o sujeito é jovem, penso que a petulância está explicada. Vai passar. Mas se já passou dos 30, se já foi curtido pela vida, a coisa me incomoda.
Um comportamento, me parece, que tem se revelado ultimamente no país, quando vemos brasileiros de meia idade, enrolados na bandeira nacional, negando as medidas rigorosas de combate à expansão do covid-19. Negam o que é consenso entre as autoridades médicas e sanitárias internacionais. Negam com o nariz erguido. Negam e acham que não serão atingidos pela catástrofe que se aproxima.
Me lembram a turista brasileira em Varadero. Ao final ela se deu bem. O filho deu todos os mergulhos que teve vontade e depois ela saiu com ele pela mão. Era uma mulher bonita. Arrogante e bonita. Bem tratada. E imagino que  ela, nesses últimos dias, deve ter estado engrossado a multidão dos bolsonaristas que estiveram na Avenida Paulista protestando contra o governo Dória, a Rede Globo e a China.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Memória, enchente e Beethoven

Algumas coisas estão se transformando dentro de mim. Nem sei o que é e escrevo para descobrir. Já fiz e refiz esse texto várias vezes e aqui vai a última versão.
Minha memória está perdendo a clareza e preciso me apressar. Algumas lembranças estão se perdendo, às vezes ganhando um jeito difuso. Diversos quadros surgem “na parede da memória” e nem sempre doem como o Belchior cantava em uma de suas canções. Pelo contrário, até dão alegria. Algumas lembranças afloram estranhas e embrulhadas em clima de sonho. Quase um conto mitológico.
Por exemplo, uma lembrança a respeito do Canal São Gonçalo (aquele canal que liga a Lagoa dos Patos a Lagoa Mirim e que muitas vezes chamamos de rio). Na primeira metade dos anos 60 ele deu de transbordar e invadir as margens da cidade de Pelotas (onde eu morava). Acho que poucas pessoas moravam na beira do rio, mas algumas casas foram alagadas. Eu residia a dez quadras do canal (mais ou menos) e lembro disso. Eu tinha menos de dez anos de idade.
Era agosto e chovia. Era agosto, a chuva dava uma trégua e fazia um dia cinzento. As pessoas vinham da beira do rio e paravam na frente de casa para contar para o pai e a mãe o que estava acontecendo com o canal. Pelo jeito dos adultos, era coisa grave. Mas eu não me assustava. Meu irmão sim. Acho que ele chorava. Minha mãe o abraçava e consolava.
Um dia o pai falou que depois da tempestade sempre vem a bonança. Não sei quando ele disse isso. Acho que foi num daqueles dias cinzentos, depois de muita chuva e trovoada. Ele colocou a 6ª Sinfonia de Beethoven na eletrola e eu ouvia (ouço até hoje) com atenção. O quinto movimento representa a tempestade e no sexto tudo muda de repente: a bonança. “O hino de ação de graça dos camponeses” (nome dado por Beethoven ao sexto movimento). Uma felicidade só.
É isso que eu lembro. As águas do São Gonçalo transbordam, invadem a cidade e até a minha casa fica submersa. Mas isso não atrapalha a vida. Pelo contrário, nós voltamos a nossa condição primeira, primitiva e arcaica, de seres aquáticos ou algo assim, e tudo corre bem.
Vá entender porque eu recordo as coisas desse jeito. Realidade misturada com fantasia, com sonho. Parece um conto mitológico. Lembro assim essa enchente. Minha memória dá piruetas e desenha as cenas da infância desse jeito.
Faz sentido e deixo dessa maneira. Sinto uma satisfação danada e me dou conta que é isso que tenho procurado. Pouco tempo atrás viajei a Pelotas, fui ao Cassino, e era isso que estava buscando: essa sensação de viver num mundo submerso, aquático, dentro da minha casa, com meus pais. Essa lembrança primitiva Minha mãe consolando meu irmão, meu pai colocando um disco na vitrola, e do outro lado da janela esse clima de horror – a enchente do São Gonçalo - incapaz de me perturbar.
Minha memória não é mais confiável. Ela está me pregando peças. Mas deixo estar. Alguma coisa está acontecendo dentro de mim e sinto que há algo de verdadeiro nessas lembranças embrulhadas em lenda.
Depois da tempestade vem a bonança. Quando parava de chover, eu saia para a calçada com meus dois irmãos e colocávamos barquinhos de papel na água da sarjeta, que corria feito correnteza de rio.
Já refiz esse texto várias vezes e não vou reescrever mais. Vou deixar assim.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Copacabana Palace

Estive no Rio de Janeiro neste verão e me hospedei em Copacabana, num ótimo hotel da Rua Xavier da Silveira. No primeiro dia, passeando pela Avenida Atlântica, minha companheira falou em tomarmos um café no Copacabana Palace. Nada mais do que um café no Pérgula do hotel, ao redor da piscina. Na verdade, um simples cafezinho. Da outra vez que estive lá inventei de pedir uma taça de vinho branco e paguei o preço de uma garrafa. O vinho era bom, claro, mas não valia tudo aquilo. O local, no entanto, puxa vida, era de cinema.
E continua sendo, constatei mais uma vez. Nessa oportunidade, uma moça caminhava de maiô inteiro, azul, lá na outra ponta da piscina, e era como se desfilasse. Alvoroçada, cheia de gestos, vestia uma espécie de saída de banho branca e transparente, esvoaçante, e andava entre as mesas, saia em direção ao prédio dos fundos, entrava, saia, voltava a andar entre as mesas, e tive a impressão de que protagonizava uma encenação. Uma performance, quem sabe.
Minha companheira chamou minha atenção para uma mulher que se deixava fotografar próxima a nós, com muitos brincos, pulseiras e colares, e percebi que era outro espetáculo. Fiquei atento. A mulher pousava puxando os cabelos para trás, indicando o detalhe dos brincos, e depois mudava de pose, as mãos na cintura, e parecia dizer para a fotógrafa que agora era ali que ela devia focar.
– Uma styler influence – imaginamos. Vendendo balangandãs, eu pensei (compraria uma biografia da Carmen Miranda naquela semana).
O garçom nos serviu os cafezinhos e notei que as xícaras não tinham alças. Coisa estranha, mas deve ser a tendência ou coisa assim. Peguei a xícara com uma das mãos (ou copo ou sei-lá-o-quê), me recostei na cadeira para beber e lá estava a moça do maiô azul sentada na mesa defronte. Ela, mais outras duas, todas jovens, bonitas e maquiadas, reunidas a três homens velhos, feios, um deles sem largar o celular.
As jovens empunhavam taças de espumante (ou seria champanhe o que elas bebiam?), riam e falavam entre si. Os homens conversavam também entre si, sem risos, um deles sempre com o celular. Minha companheira e eu nos olhamos e acho que pensamos a mesma coisa: acompanhantes, garotas de programas? Sei lá, mas não falamos nada pra não pegar mal e ficamos observando o cenário: o azul da piscina, o entardecer, a fauna sofisticada, essas coisas.
Na madrugada de hoje revi Pixote – a lei do mais fraco (no Canal Brasil) e me acordei pensando no Copacabana Palace... O que será que o Pixote, a Lilica, o Dito e Chico (personagens do filme) achariam desse hotel?
Explico melhor: Pixote, Lilica, Dito e Chico são os meninos que fogem do reformatório em São Paulo e vão para o Rio de Janeiro vender cocaína. Eles imaginam que vão se dar bem e se dão mal, claro.
Uma cena antológica: os meninos estão na Pedra do Arpoador, assistindo o entardecer na Praia de Ipanema e sonham acordados a respeito do que vão fazer quando meterem a mão na grana resultante da venda de cocaína... Os meninos divagam, a Lilica canta “Menino do Rio”, e a cena releva o quanto eles são estranhos naquela paisagem carioca, um território de alta classe média.
Exagerando a analogia, diria que lembrei do Pérgula do Copacabana Palace porque me senti como os meninos do filme: um alienígena num território estranho. Um exagero, claro. Era outro o filme que eu estava encenando. Minha companheira e eu formávamos um casal de turistas de classe média e apenas usufruíamos um dos diversos cenários do Rio de Janeiro. Nada de mais. Um dia na Pérgula do Copacabana Palace, outro no Angu do Gomes, outro na barca para Niterói.
Quando fui pagar a conta, o garçom perguntou se eu queria que lançasse nas despesas do quarto. Sem  pestanejar, eu disse que não e abri a carteira. Aprendi a me comportar no universo dos bacanas. Me tornei um personagem de filme, talvez: o turista metido, o poeta da província, conferindo os mais diversos cenários. Nesse caso, um território da mitologia carioca.