segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Uma preta que gostava de livros: Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus era negra e catadora de papéis nas ruas de São Paulo. Morava na favela de Canindé, gostava de ler e escrever. Um dia, um vizinho bateu na porta do seu barraco para perguntar onde encontrava “folhas de batatas” e quis saber também o que ela tanto escrevia. “Um diário”, ela respondeu. “Nunca vi uma preta gostar tanto de livro como você”, ele comentou.

Esse episódio, Carolina registrou no seu diário, no dia 23 de julho de 1955. Tinha 41 anos e três filhos de pais diferentes. Nesse dia, Carolina escreveu: “Todos têm um ideal. O meu é gostar de ler.” Além de ler, ela escrevia compulsivamente e teve a sorte de encontrar um jornalista que preparou os seus originais e publicou-os em livro – Quarto de despejo: diário de uma favelada –, em 1960.
Uma mulher admirável. Amargurada pela sua condição de excluída a um quarto de despejo (a favela de Canindé) da rica capital paulista, Carolina escrevia para xingar. Xingamentos que se escutam até hoje. Os seus registros da luta cotidiana pela sobrevivência e da presença constante da fome – inclusive da cor da fome: amarelo – são impressionantes: “Resolvi tomar uma média e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves tudo amarelo, depois que comi tudo normalizou-se aos meus olhos”.
Na década de 1950, a indústria brasileira se expandia, a migração campo-cidade se acentuava e as grandes capitais inchavam. O desenvolvimento urbano, no entanto – como é de praxe na história brasileira –, não atendia as necessidades básicas de grande parte da população e as favelas eram um fenômeno que escancarava a lógica excludente do crescimento econômico. Comentando esse período da sociedade brasileira, o historiador norte-americano John Chasteen cita o caso da favelada Carolina de Jesus: “ela acalentava mais sonhos que a maioria”. Tinha completado o segundo ano primário (em sua cidade natal, Sacramento, em Minas Gerais) e talvez isso fizesse a diferença. “Carregava em uma sacola de aniagem [os papéis velhos que coletava nas ruas] e vendia pelo equivalente a 25 centavos de dólar ao dia.” Sofria as privações que a cidade grande lhe impunha e refletia sobre isso.
Em 1959, num bate-boca com os vizinhos de favela, disse que escrevia porque precisava “mostrar aos políticos as péssimas qualidades de vocês”. E acrescentou que contava com o apoio de um repórter, Eudálio Dantas, o jornalista que já naquele ano preparava os originais do que seria o seu primeiro livro: Quarto de despejo.
Com a vendagem do livro – um sucesso no início dos anos 60, com tradução para treze idiomas –, Carolina de Jesus conseguiu a casa de alvenaria com a qual sonhou durante anos.

O livro Quarto de despejou entrou na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS  e talvez por isso eu o tenha encontrado na vitrine de uma livraria. Conhecia-o apenas dos trechos citados nos livros de História, como um dos raros registros da miséria brasileira produzido por um miserável e não por escritores de classe média ou alta. Feita a leitura, constato que é mais do que um documento histórico, é uma obra literária de beleza áspera, que me fez lembrar outra grande escritora negra: Marilene Felinto, autora de As mulheres de Tijucopapo. Mulheres de faca na bota.
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* O livro de John Chasteen citado é América Latina: uma história de sangue e fogo (RJ: Campus, 2001); o de Carolina de Jesus é Quarto de despejo: diário de uma favelada (SP: Ática, 2014 - 10 ª edição, 8 ª impressão).

domingo, 17 de setembro de 2017

Apenas um rapaz latino-americano

         Antônio Carlos Belchior se tornou um enigma para muitos dos seus fãs. Em 2007, desapareceu dos olhos do público. Algumas vezes surgiam notícias de que ele estava no Uruguai, de repente era visto em Porto Alegre, a imprensa corria atrás e novamente ele sumia. Em abril desse ano, ele morreu de um aneurisma na aorta na cidade de Santa Cruz do Sul, sem que o mistério se solucionasse. O jornalista Jotabê Medeiros, que preparava uma biografia do cantor, estava com passagem comprada para Santa Cruz, iria entrevistá-lo e tentar conseguir uma resposta para o enigma, mas não houve tempo.

A biografia de Jotabê Medeiros acaba de sair – Belchior: um rapaz latino-americano (Ed. Todavia, 200 p.) – e não poderia haver subtítulo melhor para a narrativa da trajetória desse cantor e compositor do que o seu famoso verso sobre a rapaziada latino-americana. Segundo Jotabê, o verso nasceu durante uma aula na Universidade de Brasília, em 1974 ou 75, do filósofo cearense Augusto Pontes (e também amigo e guru do compositor). O filósofo se apresentou dizendo que era “apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares” e o compositor serviu-se da frase como mote para uma canção: “Eu sou apenas um rapaz / latino-americano / sem dinheiro no banco / sem parentes importantes / e vindo do interior”.  Uma pegada comparável as de Raul Seixas, outro compositor que sacava as elaborações filosóficas complexas e as transformava em canções de grande alcance comunicativo.[i]
Nos anos 70, talvez não houvesse estudante universitário que não tivesse os versos de Eu sou apenas um rapaz... na ponta da língua. No turbilhão daqueles anos, marcados por uma ditadura militar e a aceleração do desenvolvimento capitalista, parte da juventude brasileira procurava definir uma identidade latino-americana e sentia-se acossada por conta da conjuntura política e econômica. Os versos de Belchior vinham a calhar.
Belchior teve seu primeiro LP em 1974 (Mote e glose), mas a fama só veio dois anos depois, quando Elis Regina interpretou duas de suas melhores canções – Como nossos pais e Velha roupa colorida – e lançou o seu segundo LP, o antológico Alucinação. Com voz fanhosa, anasalada, era incrível que ele conseguisse ser ouvido e comparado com as interpretações impecáveis de Elis Regina. Um fenômeno! Um cantor de poucos recursos musicais (especialmente se comparado com Elis), mas que se impunha como compositor e intérprete extremamente perspicaz das inquietações brasileiras.
A biografia de Jotabê reconstitui a trajetória de Belchior (1946 – 2017) e indica possíveis respostas para o sumiço do cantor, nos dez últimos anos de vida. Ao colocar no primeiro capítulo o período da vida (três anos) em que Belchior esteve no mosteiro dos capuchinhos em Guaramiranga (Ceará), o biógrafo dá um peso considerável para a inclinação religiosa do cantor. No mosteiro, Belchior consolidou o seu pendor para a literatura, a filosofia, assim como adquiriu a disciplina intelectual que possibilitará a sua extensa produção poética. Da mesma maneira, exercitou o seu sonho de santidade, constatou que sua vocação religiosa era pouca e caiu fora, pegou a estrada.
Este sonho de criança Belchior teria alcançado no final da vida, segundo o seu amigo e analista Barbosa Coutinho (o famoso “analista amigo meu” da canção Divina comédia humana). Escondendo-se dos fãs e até dos familiares e amigos (protegido por uma espécie de Yoko Ono brasileira, a sua última mulher, Edna Prometheu), Belchior talvez tenha vivido o sonho de pureza dos santos e também dos velhos hippies: a não pactuação com o “Sistema” (para utilizar uma expressão dos anos 60 e 70). Uma tese para os fãs debaterem, para melhor entender esse poeta nordestino que fez a cabeça de muitos de nós.





[i] A frase completa do filósofo Augusto Pontes, segundo as anotações que deixou, é a seguinte: “Sou apenas um sul-americano sem parentes no poder, apenas a pessoa eu, no estado de mim mesmo”. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Divagações em torno da exposição de arte queer em Porto Alegre

       Visitei a Galeria Borghese este ano, em Roma, e não saberia dizer o que mais gostei. Seguramente de uma pintura de Caravaggio, “Madona com a serpente”, na Sala de Sileno, que me fisgou de um jeito que me fez esquecer tudo ao redor. Mas devo confessar que fiquei de queixo caído quando entrei na Sala do Hermafrodita e respirei o ar de sensualidade refinada que se desprende das obras ali expostas, tanto da escultura romana que dá nome a sala quanto das pinturas das paredes e do teto tematizando a trajetória do mítico Hermafrodita. Coisa impressionante.

A galeria em questão foi criação do Cardeal Borghese, no início do século XVII. O cardeal era sobrinho do Papa Paulo V e ambos estavam sintonizados com a tradição da alta hierarquia católica de recuperação da arte greco-romana. O cardeal e o papa não pouparam esforços para incentivar as artes (com verbas da Igreja) e coube ao Cardeal Borghese a construção de um palácio (matriz da atual galeria) com o propósito de reunir algumas obras e promover a criação artística.  
Era o tempo da Contra Reforma e não deixa de causar perplexidade o fato de uma escultura representativa da sexualidade “excêntrica” – o Hermafrodita – tivesse acolhida nesse palácio eclesiástico. A escultura fora descoberta durante a construção dos alicerces da igreja de Santa Maria da Vitória, em Roma, e o cardeal pagara uma alta soma de dinheiro para adquiri-la. A peça permaneceu na galeria até o início do século XIX (época da invasão napoleônica), quando foi levada para a França. Hoje se encontra no Louvre e o que se vê na galeria é outra cópia romana da mesma escultura grega.
Milhares de turistas visitam essas obras em Roma e Paris, são conquistados pelos encantos da representação artística do hermafroditismo – da sexualidade estranha à normativa heterossexual – e poucos se escandalizam com isso. Afinal, a arte que tematiza a sexualidade, tanto a sexualidade heterossexual quanto outras, é daquelas que mais fascina. Se o tema da sexualidade se fundir com o da religiosidade, então, o resultado geralmente é de grande impacto. O Hermafrodita tinha conteúdo sagrado na Antiguidade (ele era filho de Hermes e Afrodite), mas perdeu esse caráter ao se tornar parte de uma coleção católica e ser fonte inspiradora de um novo estilo artístico: o barroco romano.
Lembrei da Galeria Borghese e de sua Sala do Hermafrodita, quando tive conhecimento das manifestações contrárias à exposição de temática LGBT – “Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira” – no Santander Cultural, em Porto Alegre. Afinal, se os protestos se deram devido à tematização de sexualidades contrárias a normatividade heterossexual, já era hora dos manifestantes saberem que é esse tipo de arte é antiga e que provoca muita satisfação ao público. Se os manifestantes se incomodaram com a utilização de temas religiosos, na certa também desconsideraram que essa é uma das matérias-primas da arte.
Quando visitei a exposição no Santander, em agosto, imaginei que o material ali apresentado fosse causar polêmica. Mas supus uma polêmica inteligente, tanto a respeito da linguagem artística das obras quanto da temática abordada, inclusive quando utilizava elementos religiosos. Afinal, tratava-se de uma exposição provocativa, com muitas peças criadas nos termos da questionada estética conceitual (ou pós-moderna), ainda não assimilada, e apresentadas em diálogo com obras de outros períodos da arte, a instigar comparações, questionamentos e muitas vezes desconcertar.

Algumas peças utilizavam elementos do imaginário católico – como o caso da escultura “Cristo Nosso de Cada Dia” (1978), de Roberto Cidade (um dramático Cristo na cruz com o pênis ereto), e da pintura “Last Resort” (2016), de Felipe Scandelari (uma Madona com um desconcertante chipanzé de fraldas no colo) – e a polêmica era inevitável. Mas polêmica civilizada, como é costume no meio cultural, polêmica que considerasse os termos da arte e avaliasse as obras a partir do seu potencial conceitual, expressivo ou outro.
Mas me enganei. O que ocorreu – os manifestantes zombando dos visitantes, atacando o curador, ameaçando o museu, clamando pelo fechamento da exposição – fugiu completamente aos termos do debate de ideias, mesmo quando impregnado de paixões. Até no campo da arte estamos longe da discussão civilizada.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Irmão Antônio e a busca da Terra Sem Males

       Foi lançado na Assembleia Legislativa, em Porto Alegre, um livro em homenagem ao Irmão Antônio Cecchin, uma personalidade que é referência para os movimentos sociais no Brasil e, em especial, no Rio Grande do Sul. Sua prática política-religiosa esteve vinculada à criação da Comissão Pastoral da Terra, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), da Romaria da Terra e da Pastoral da Ecologia. É de sua autoria também o processo de canonização do índio guarani Sepé Tiaraju.
         Irmão Antônio nasceu em Santa Maria, em 1927, e tornou-se religioso Marista em 1946. Em novembro do ano passado, faleceu. Lecionou no Colégio Rosário, em Porto Alegre, foi membro da Ação Católica e talvez essas duas atividades – a de professor de escola confessional e a de católico engajado – sejam as definidoras da sua vida.
Nos anos 1950, alinhado à orientação de D. Helder Câmara, participou da transformação da Ação Católica, a qual adotou o método “Ver, Julgar e Agir”, uma mudança ideológica que correspondia aos novos ventos que agitavam a Igreja Católica, conduzindo-a ao Concílio Vaticano II, à Conferência de Medelin e à “opção preferencial pelos pobres”.
         Enquanto professor nas escolas maristas (entre o final da década de 1940 até o início dos anos 70), Irmão Antônio criou as Fichas Catequéticas (material para a formação religiosa de adolescentes), as quais considerou um “divisor de águas” na sua vida. As Fichas se tornaram alvo de grande polêmica no Brasil e foram condenadas pelo Ministro da Educação Jarbas Passarinho, em 1970, durante o Governo Médici. A partir daí (e também devido às prisões que sofreu, em 1969 e 1972) sua prática religiosa passou a se dar junto às populações desfavorecidas e não mais entre os jovens de classe média e alta atendidos pelas escolas maristas. É a partir daí que sua prática religiosa se vincula aos setores sociais marginalizados do campo e da cidade, como os agricultores sem terra, os migrantes nas periferias urbanas e os catadores de lixo, e à criação de organizações capazes de levar a cabo suas demandas.
Irmão Antônio realizou uma ação política sempre vinculada à fé católica, voltada à “conscientização libertadora dos excluídos” (nos termos estabelecidos pelas Comunidades Eclesiais de Base), e capaz de articular-se com outras religiosidades, como as de matriz indígena e africana.
Quem acompanhou o seu trabalho sabe dessa capacidade de aglutinação das diferentes religiosidades em torno de uma proposta teológica católica. O título do livro – “Irmão Antônio Cecchin: ‘seguindo o caminho’ (At 9,2) em busca da Terra Sem Males” – é indicativo disso. Reúne – a partir do seu nome, o nome de um militante religioso – a fusão entre uma passagem bíblica (do Atos dos Apóstolos, “seguindo o caminho”) com o cerne da crença religiosa guarani (a busca da Terra Sem Males). Em resumo, a articulação da religiosidade do colonizador católico com a religiosidade de uma das populações mais antigas da sociedade sul-rio-grandense. Uma fusão religiosa visando a melhoria das condições de vida das populações mais carentes e que deu resultado. Afinal, estão aí os assentamentos de pequenos agricultores realizados pelo MST (movimento social que ajudou a criar) e também a organização de vilas populares em Canoas (das quais foi liderança fundamental).
Trata-se de um livro, organizado por Matilde Cecchin, feito de depoimentos que lembram e celebram a dimensão grandiosa e também de humildade desse excepcional militante político-religioso. Um livro que também aponta um realidade social - a dos excluídos de muitos dos benefícios proporcionados pela nossa sociedade - que está longe de ser equacionada de forma civilizada.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O coronel Fawcett e as minas de prata do Moribeca

Está disponível no Net Now um filme a respeito do coronel Percy Fawcett. Chama-se Z, a cidade perdida, dirigida por James Gray, produção norte-americana de 2016. Imperdível para quem gosta de histórias de exploradores das potências europeias em busca de civilizações perdidas em territórios inexplorados e habitados por selvagens.
Percy Fawcett (1867-1925?), oficial do exército britânico, foi uma das inspirações para a criação de Indiana Jones, mas o filme está longe das narrativas trepidantes de Caçadores da Arca Perdida e de outros com o mesmo personagem. É um filme lento – com excelentes atores, fotografia primorosa – que investe nas motivações pessoais de Fawcett para se embrenhar na selva amazônica, assim como no ritmo vagaroso, exasperante (mas nem por isso menos apaixonante), das expedições exploratórias do início do século XX. Não segue à risca o gênero “filme de ação”, porém, a sua maneira, é um filme de herói explorador.
Segundo o filme, Fawcett busca a glória (encontrar uma civilização perdida) com o propósito de limpar o nome da família – enlameada pelo pai viciado em jogo e bebida – e cumpre com rigor esse objetivo. A esposa o apoia e chega a se revelar disposta a participar das expedições. Diante da negativa do marido, ela protesta pelo fato dele não aceitar a igualdade entre homens e mulheres e o bate-boca entre o casal esquenta. Mas ela acaba assumindo o padrão tradicional (mulheres não têm treinamento para se embrenharem na selva, mulheres ficam em casa cuidando dos filhos) e o herói segue sozinho para a selva, isto é, apenas com os seus companheiros homens.
A narrativa é muito simpática em relação a esposa de Fawcett e a mostra encontrando um manuscrito, escrito por um “soldado português do século XVIII”, que indica a existência de uma cidade perdida no interior da América do Sul. Seguramente, trata-se do famoso “Documento 512” - que guiou Fawcett pelo interior do Brasil - relativo a uma bandeira realizada no período colonial que foi em busca das minas de prata indicada por outro bandeirante, o Moribeca, e encontrou as ruínas de uma povoação antiga. Segundo o manuscrito, foi descoberta uma “oculta e grande povoação antiquíssima sem moradores”, com entrada formada por “três arcos de grande altura” e muitas casas “com seus telhados descobertos e sem telhas”.
O Documento 512 foi encontrado na Livraria Pública da Corte (atual Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro), em 1839, e, ao que consta, não saiu de lá até hoje. O manuscrito foi publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico, ainda no século XIX, e teve ampla circulação. Serviu de inspiração para o romancista José de Alencar escrever As minas de prata (1865) e era conhecida por Rider Haggard (As minas do rei Salomão, 1886) e Arthur Conan Doyle (O mundo perdido, 1912) – esses dois últimos, figuras que Percy Fawcett conhecia pessoalmente.
Segundo pesquisadores, Fawcett começou a se interessar por civilizações perdidas quando servia no Ceilão e conheceu o Documento 512 por meio da tradução feita por um membro da Real Sociedade Geográfica de Londres, o explorador Richard Burton (personagem de outro filme fabuloso sobre exploradores ingleses, Montanhas da Lua, a respeito da busca das nascentes do Rio Nilo). Seja como for, ao apresentar a mulher de Fawcett descobrindo o manuscrito, o filme delineia uma esposa amorosa e engajada na obsessão do marido – o que ela foi até o final da vida.
É uma bela história, a que protagonizou o coronel Percy Fawcett - e o filme dá conta disso. Porém, resta a observação: no século XVIII, os bandeirantes saíram em busca das minas de prata indicadas pelo Moribeca e "descobriram" as ruínas de uma antiga civilização. Isso criou uma longa tradição, que incendiou a imaginação de pesquisadores, romancistas, exploradores e também cineastas. Mas o documento dessa expedição é apenas indicado de passagem no filme em questão. Um filme brasileiro - como o que estava para sair, feito a partir do livro Coronel Fawcett: a verdadeira história de Indiana Jones (1996), de Hermes Leal –, talvez desse outro tratamento a essa tradição criada pelo Documento 512. Mas o cinema norte-americano, que conhece melhor o caminho das pedras (ou das minas), correu na frente.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Leitura na escola

        Quando eu era guri de ginásio, ouvi um professor dizer em sala de aula que um bom exercício para escrever era a feitura de um diário. Comecei, fiz um diário das minhas férias de inverno daquele ano (1969), peguei o “vício” e passei a escrever diariamente.
Na década de 90, reencontrei esse material e o utilizei para uma novela juvenil, que denominei Jorge encontra Lilian. Eu andava escrevendo livros paradidáticos para a Editora FTD e achei que poderia emplacar um texto ficcional também. Apresentei os originais para a editoria de literatura juvenil, mas não rolou. A literatura juvenil havia mudado e eu não percebera. Os textos publicados enfocavam temas contundentes – devastação do meio ambiente, consumo de drogas ilegais, AIDS – e a minha história passava longe de tudo isso. Não tinha nenhum apelo dramático. Era a simples narrativa de um menino introspectivo, de classe média, descobrindo o mundo e, especialmente, o sexo oposto. A editora publicara um livro do gênero e não se arriscaria em mais um título.  “Isso vende pouco”, a editora me disse.
Eu não apresentei os originais para outra editora e tratei de encarar a coisa de forma independente. Contratei um diagramador profissional, ele fez o projeto gráfico, a capa, e mandei imprimir. Fiz mil exemplares e vendi mais da metade nas escolas de Ensino Fundamental de Santa Maria e região, entre alunos de sétima e oitava séries. Contei com a colaboração de professores de Língua Portuguesa, que adotavam a novela nas suas turmas, e a coisa funcionou. Era início dos anos 2000 e fui em várias escolas conversar com meus leitores.
Nesse ano, soube que o livro ainda é adotado numa escola de Santa Maria e fui novamente conversar com os alunos. Constatei que a novela continua sendo lida, compreendida, mas não senti grande entusiasmo por parte da gurizada. Eles estão noutra, pensei. Um menino me perguntou sobre a literatura fantástica, por que eu não enveredava por esse caminho, e percebi que não estou em sintonia com os novos leitores. O livro que entusiasma os leitores jovens é alguma coisa que envolva elementos sobrenaturais e não sei fazer isso. Se quisesse emplacar meu Jorge encontra Lilian, imagino que o Jorge deveria ser a encarnação de um viking do século IX, navegando numa nau interespacial, em busca de um amor redentor em alguma megalópole sul-americana. O imaginário juvenil me parece que anda por aí. O jovem leitor que me questionou talvez seja representativo desse público leitor.
E voltei para casa pensando que aquele rapazinho - de modo semelhante ao que eu fazia nos final dos anos 60 - está escrevendo diariamente. Mas na certa não produz um diário e, sim, um texto no qual um jovem herói viaja no tempo, desafia os limites da vida e da morte, e se utiliza de tecnologias não acessíveis aos mortais comuns. Outros tempos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Palácio de Queluz - coisas que vivemos quando viajamos

Um amigo me enviou pelo correio eletrônico uma foto do famoso Quarto D. Quixote, no Palácio de Queluz, em Portugal, no qual D. Pedro I morreu em 1834. A foto centraliza a cama com dossel – onde também nasceu o futuro imperador – iluminada por uma forte luz vinda das janelas. Muito diferente da imagem que tenho do mesmo quarto.
Visitei o palácio em 2014, num dia de inverno, e o quarto estava sombrio. Não lembro se as janelas estavam abertas ou não. Era um dia chuvoso. Minha mulher e eu ficamos parados no meio do quarto e a monitora da sala nos contou que os brasileiros gostam muito de visitar o lugar, alguns vêm especialmente para ver onde "o imperador do Brasil morreu" e pouco dão atenção às demais peças.
Achei a observação curiosa e fiquei até tomado de alguma emoção retroativa àquele momento dramático da morte de um rei, que, segundo os livros de História, muitas vezes desencadeia uma fase de tensão política e até de instabilidade social. Há um quadro representando os últimos momentos de D. Pedro e creio que ele está reproduzido em miniatura na ficha explicativa colocada na frente da cama. Emocionado ou coisa parecida, não tirei nenhuma foto do local (apesar de permitido).
Quando D. Pedro faleceu, ele abdicara a coroa do Império brasileiro e se tornara Rei de Portugal com o título de D. Pedro IV. Pelo que narra a historiadora Mary del Priore em A carne e o sangue (biografia de D. Pedro com ênfase nos seus amores), ele estava com a saúde bem ruinzinha aos 30 anos e uma tuberculose acabou dando cabo de seu corpo debilitado, quando tinha 35.
Escrevo isso de memória, sem consultar o livro da Mary del Priore, pois quando viajamos é assim: vamos lembrando as coisas de cambulhada, muitas vezes as informações se embaralham e é esse quadro que fica na memória. Eu me utilizo de guias, folders, prospectos, mas às vezes não consigo me concentrar e fico flanando pelos lugares. Foi um pouco assim no Palácio de Queluz.
Meu amigo contou que fez um passeio rápido pelo palácio e riu muito ouvindo um colega (professor de História) comentar as fofocas da corte lusitana. Ele estava num congresso de historiadores e a visita ao palácio durou pouco tempo. Minha mulher e eu passamos boa parte de um dia andando pelos corredores, salas e jardins – praticamente vazios naquele dia de inverno –, lemos detidamente as informações de algumas peças e objetos, conversamos com os monitores, e igualmente ficamos com essa impressão de que tudo é muito rápido, efêmero e que dos séculos de história contidos naquelas paredes pouco ou quase nada apreendemos.
Éramos um casal plebeu, do outro lado do Atlântico, conhecendo as plagas dos antigos colonizadores e tudo aquilo era um pouco estranho. Súbito cruzamos com um casal de atores, vestidos como cortesões do século XVIII, e travou-se um diálogo engraçado.
O cortesão nos perguntou de onde vínhamos, dissemos que éramos do Brasil, e ele quis saber como estava “a Colônia”. Informado de que o Brasil não era mais colônia, o ator – muito afetado, como talvez tenham sido os cortesões do Palácio de Queluz – encenou uma perplexidade que nos fez rir e depois saiu por um salão envidraçado, a andar elegantemente com sua companheira.
- As voltas que o mundo dá - dissera o ator, encenando de forma cômica as transformações políticas e sociais que nós, professores de História, sisudamente explicamos em sala de aula, muitas vezes enfastiando os alunos.