sexta-feira, 27 de março de 2026

Tecendo lembranças de viagem

 

Uma viagem não termina depois de voltarmos para casa. Ela continua de outras maneiras, por meio das lembranças que trazemos e revivemos posteriormente.

No meu caso, enumero vários momentos dessas andanças que, volta e meia, retornam a minha memória. Uma delas, durante uma excursão pela Grécia e Turquia, em maio de 2023, privilegiando os sítios arqueológicos e museus da civilização greco-romana. Uma viagem muito especial, guiada pelo professor Francisco Marshall, iniciando por Atenas, passando por Mileto, Éfeso, Troia, Macedônia, Delfos, isto só para citar alguns locais.

Quando chegamos ao norte da Grécia, andamos pelo sítio arqueológico de Pella (capital do antigo reino da Macedônia) e, na sequência, o seu museu. O professor Marshall parou na frente de um enorme mapa do Oriente Médio, reproduzindo a trajetória de Alexandre, o Grande, sua travessia pelo antigo Império Persa, desde o Helesponto (o Estreito de Dardanelos, na atual Turquia) até o Egito, passando pela Babilônia e alcançando a Índia, expôs de forma sintética a trajetória do grande conquistador... e vivi uma espécie de epifania.

Sim, um encontro com uma divindade, pois, afinal, era sobre um herdeiro de Aquiles que professor estava falando, um homem que se percebia descendente do grande herói da Ilíada, por parte de mãe, assim como de Hércules, por parte de pai. Uma figura que explorei nas minhas aulas de História Antiga por mais de vinte anos, sem nunca esgotar.

Fiz a visita ao museu com essa emoção, com a pretensão de decifrar aquele mundo tragado pelo tempo e sentindo, em cada peça da exposição, a atualização da Antiguidade, como no caso dos artefatos encontrados nos túmulos de guerreiros da época (foto abaixo).

Vitrines com artefatos bélicos encontrados nos túmulos
de guerreiros macedônios. Museu de Pella.

Não, nunca compreenderei o Mundo Antigo. Mas sempre o olharei com espanto e admiração, mantendo uma curiosidade enorme por esse território povoado por homens e mulheres incompreensíveis e admiráveis.[1]

Muitas viagens que realizo me fazem reviver esse sentimento nascido na infância, quando assistia filmes de temática histórica na matiné e folheava livros com gravuras sobre o tema. Recentemente, no Museu do Bardo (Tunísia), admirando mosaicos romanos que enfocavam temas gregos, revivi essa emoção...

Os romanos, nos gloriosos tempos de seu império, não esqueceram o mundo grego e o tematizaram em seus mosaicos, desenhando Dionísio, Hércules e Alexandre, entre outros. Figuras mitológicas e históricas, todas embaladas na mesma toada épica e/ou mágico-religiosa. Percorrendo as salas do museu, sintonizei com essa mesma memória e admiração... e, quando voltei para casa, ainda estava embalado nesse sonho (devaneio de quem se deixou fascinar pela cultura clássica). Resultado: passei três semanas envolvido na leitura da trilogia “Aléxandros”, de Valerio Manfredi. Um romance de 1.070 páginas abordando de forma realista a trajetória do rei macedônico, apresentando soluções muito interessantes para aspectos polêmicos da vida do herói, “sem prejuízo da fidelidade às fontes literárias e materiais” (segundo o próprio autor).[2]

  Terminado o romance, não tenho claro o que concluí em relação ao famoso guerreiro e criador de uma nova fase da História Antiga, a dos chamados reinos helenísticos, que fundiram as culturas grega e persa.[3] Certamente uma figura importante pelos seus feitos político-militares e deplorável por seus caprichos, megalomania e rompantes de crueldade, como a tortura ao rei da cidade de Gaza (amarrado vivo ao seu carro de combate) ou como o incêndio de Persépolis (militarmente desnecessário).

Seja como for, cheguei à última página com a certeza de estar cumprindo um destino forjado para todos aqueles que foram enfeitiçados pelo mundo clássico e cultivaram um interesse especial por esse rei macedônico que encarnou a figura de Aquiles e foi admirado por outras figuras notáveis, como Aníbal e Júlio Cesar.[4] Ou, simplesmente, terminei o livro tecendo as lembranças de um viajante que um dia andou pelo sítio de Pella e por outros locais com marcas da Antiguidade Clássica, admirando ruínas de templos, palácios e túmulos, mais mosaicos, esculturas, armaduras e armas que remetiam ao grande conquistador. Viajar, afinal, não termina quando regressamos a nossa casa.

Cabeça de mármore de Alexandre, o Grande (325-300 a.C.),
encontrada por acaso na região de Giannista (na Macedônia).



[1] Geralmente imagino os homens e mulheres do Mundo Antigo de modo muito semelhante ao que vi no filme “O retorno” (2024), baseado na “Odisseia” e dirigido por Uberto Pasolini. Na cena final, depois de Ulisses (interpretado por Ralph Fiennes) ter massacrado todos os pretendentes à mão de Penélope (Juliette Binoche), ele é banhado pela esposa e os dois mantem um diálogo que me emocionou até o fundo da alma. Uma recriação magnífica da cena criada por Homero. Penélope querendo compreender a estranha trajetória do marido na volta de Troia e ele respondendo que não sabia o que fizera. Apenas cumprira o que os deuses haviam determinado para ele. Um modo certamente fantasioso de ver os homens e as mulheres da Antiguidade, mas coerente com as suas estaturas míticas. Personagens capazes de viver e aceitar os seus destinos de modo integral e intenso.

[2] MANFREDI, Valerio. Aléxandros. 3 volumes: O sonho de Olympias, As areias de Amon, Os confins do mundo. RJ: Editora Rocco, 1999. O autor nasceu em 1943, na Itália, é graduado em línguas clássicas pela Universidade de Bolonha, especializado em topografia do Mundo Antigo, dirigiu escavações em várias localidades do Mediterrâneo e tem vasta obra ficcional sobre temas da Antiguidade.

[3] Reinos surpreendentes, como o de Commagene (no interior da atual Turquia), que deixou no alto do Monte Nemrut enormes cabeças de pedra com figuras que fundem elementos dos mundos grego e persa. Monumento mandado construir pelo rei Antióquio I Epifânio, no século I a.C. (possivelmente seu túmulo), e que visitei, embasbacado, num alvorecer de 2019.

[4] No segundo volume da trilogia “Aléxandros”, Alexandre visita um templo da cidade de Ílion, herdeira da antiga Troia, e encontra a armadura e as armas de Aquiles. Dizendo-se herdeiro do herói homérico, ele se apossa desses “objetos sagrados” e ordena que eles sejam levados para serem erguidos diante do exército como “estandarte antes de cada batalha”. (MANFREDI, V.  Aléxandros: as areias de Amon. RJ: Rocco, 1999. P. 9-14.)

domingo, 15 de março de 2026

Redobrar o nó, juntar as pontas

 

No verão de 1992-93, eu era um professor de 37 anos procurando se enquadrar numa universidade, depois de treze anos na escola estadual. Tomara posse um ano antes, ainda estava em estágio probatório, cursava o mestrado e meu prazo para a defesa do trabalho final se esgotava no final de 93. Então eu tinha as aulas do departamento para ministrar mais uma dissertação para escrever. O colegiado do departamento fora compreensivo e me dera disciplinas a respeito das quais eu tinha certo domínio. Daria para eu conciliar as aulas e a escrita da dissertação, imaginava. E me joguei, naqueles dias quentes de verão, a datilografar o primeiro capítulo do meu trabalho de mestrando.[1]

Mas uma disputa política corroeu as entranhas do departamento (uma briga entre o diretor e o vice), eu me posicionei mal no conflito (assumi uma posição de neutralidade) e levei chumbo do diretor. Ele me chamou na sua sala, disse que havia revisto as minhas disciplinas e meu obrigou a lecionar História Antiga... que ele bem sabia ser um conteúdo do qual eu tinha pouco conhecimento. História da Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma, sem esquecer os hebreus e os fenícios. Aulas que exigiriam muito preparo e consumiriam as horas que eu pensava dedicar à dissertação.

“Quem não se alinha comigo, está contra mim”, o diretor me dissera em algum momento e eu esquecera o aviso. Santa ingenuidade, a minha, não avaliara o ninho de cobras em que estava metido! Engoli em seco a paulada, arregacei as mangas e fui em frente. Encarei as aulas sobre o Mundo Antigo, escrevi a dissertação (que defendi dentro do prazo) e fiquei para sempre engasgado com os mistérios e a imensidão da Antiguidade. Incomodado com a minha ignorância a respeito desse período histórico.

Um sentimento, de perplexidade e incômodo, que revivi ao visitar o Museu do Bardo, na Tunísia (viagem que realizei no mês passado), ao me deparar com belíssimos mosaicos romanos, super bem preservados. Entre eles, o famoso “Ulisses resistindo  ao canto das Sereias”, datado do século III d.C., abordando um episódio da “Odisseia”, de Homero. Ulisses preso com cordas ao mastro do navio para ouvir “a voz arrebatadora das Sereias” sem ser arrastado e morto por elas. Um episódio a respeito do qual um aluno me perguntou certa vez, em sala de aula, e eu não soube responder. Disse que iria consultar em casa, na biblioteca da universidade, e só algumas semanas depois consegui chegar a uma resposta satisfatória.

"Ulisses resistindo ao canto das Sereias" (séc. III d.C.)
À direita, as pérfidas Sereias, capazes de atrair com sua música os viajantes desavisados.

Tempos em que não havia Google nem IA e não se resolvia uma dúvida ou curiosidade num piscar de olhos. Tempos difíceis, aqueles. Para mim, período de grandes desafios. Demorei a compreender os grandes momentos do Mundo Antigo (a conquista do Império Persa por Alexandre, o conflito entre Otávio e Marco Antônio/Cleópatra, o declínio ou transformação do Império Romano) e muitas vezes empacava nos pequenos acontecimentos (Ulisses e as Sereias, a tomada de Tiro por Alexandre, a Campanha da Gália). Custei a ter domínio sobre o vasto conteúdo da Antiguidade e a não me intimidar com os questionamentos dos alunos.

No Museu do Bardo, disse para mim mesmo que não era mais o professor assustado de 37 anos e procurei lembrar a passagem em que Homero canta o episódio das Sereias... O que faço agora, tirando a tradução de Donaldo Schuler da estante e lendo em voz alta:

“Revelarei o que nos espera [diz Ulisses aos seus companheiros]. Podemos morrer ou escapar incólumes. Atenção aos perigos! Evitar a voz arrebatadora das Sereias e os campos floridos em que moram é a primeira providência. Só a mim está reservado ouvir o canto. Amarrai-me firmemente. Não deverei arredar o pé. Estarei ereto junto ao mastro. Atem-me com laços apertados. Se eu rogar que me soltem, a tarefa de vocês será redobrar o nó.”[2]

Redobrar o nó para não cair nas garras das Sereias. As sereias da mitologia greco-romana, que possuíam garras como aves de rapina e não eram as figuras encantadoras, de rabo de peixe, que se transformaram tempos depois. Redobrar o nó, juntar as pontas das cordas de tempos e experiências distintas: as dos desafios de um jovem professor de História Antiga com a tranquilidade de professor aposentado que vivo hoje.



[1] Sim, eu iniciei o trabalho numa máquina de escrever. Logo um colega me emprestou o seu computador, que eu passei a utilizar à noite, nos horários em que ele não necessitava do aparelho. Minha escrita deslanchou.

[2] HOMERO. Odisseia II: o regresso. Trad. Donaldo Schüler. POA: L&PM, 2014. P. 223. (Canto 12, versos 156 a 164.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Sexualidade como campo minado

 

Aos 16 anos senti, pela primeira vez, o que era estar apaixonado. A guria tinha 19 anos, se preparava para o vestibular, e me pareceu deslumbrante. Inteligente e vivaz. Com ela tive os primeiros amassos e senti o que era excitação sexual. Que coisa surpreendente e maravilhosa! Mas jamais passamos dos abraços, beijos e carícias. Um namoro que durou pouco mais de meio ano.

Num final de semana fomos a um baile (no salão de uma paróquia) e talvez tenhamos bebido demais, isto é, passado dos dois copos de Coca-Cola com rum cada um. De repente ela sumiu e eu soube que as irmãs dela acharam que ela estava dando vexame e a levaram para casa. Uma delas falou comigo e insinuou que eu não era boa pessoa. Eu ultrapassava os limites da intimidade (amassos além da conta) e, para completar, exagerava na bebida.

Eu não me despedi da namorada e sai do baile para bater pernas sozinho pela rua. Vale destacar que era 1971 e caminhar em Porto Alegre de madrugada não oferecia riscos. Eu tinha o costume de andar pela cidade durante a noite e creio que foi aí que me dei conta de que a sexualidade era um “campo minado”. Sim, nesses termos. Era preciso tomar cuidado. Cada gesto ou atitude precisava ser dado dentro das regras, caso contrário se pisava numa bomba.

Um campo difícil de percorrer, esse da sexualidade. A mãe da guria ensinava para as filhas que sensualidade era luxúria, pecado, e não convinha a uma menina de família se entregar a esses “instintos”. Minha namorada não concordava, não era o padrão que pretendia seguir, mas não conseguia se contrapor à mãe.

Na sequência, fui dispensado (“A mãe acha que tu não serves para mim”, ela me disse) e logo encontrou um namorado equilibrado que, pelo que entendi, a tratava de modo convencional, dentro do estilo “pra casar”. Sem amassos nem bebida além da medida, imaginei.

Engraçado, lembro disso e associo com o que conheci anos depois a respeito de nossos hábitos e costumes (em especial na região campeira): a rispidez masculina na hora do sexo e o tormento das mulheres incomodadas com essa violência. Mulheres que cresciam num ambiente onde os homens faziam sexo de modo brutal (rasgando a roupa da noiva na primeira noite de núpcias, impondo seus “direitos de esposo”) e se habituavam à histórias de namoradas, noivas e casadas que eram abusadas, até estupradas. Muitas vezes suas irmãs, mães e tias, que se digladiavam com seus respectivos, às vezes cediam de má vontade, outras vezes não. “Tu estás fedendo a bebida”, a esposa falava. “Ao menos toma um banho, pra tirar essa graxa”, pedia outra. Ou, simplesmente: “Não, agora não”. 

Um contexto cultural (sempre difícil de ser enfocado) no qual o sexo era terreno perigoso, seja porque fosse “pecado”, seja porque tivesse de ser realizado sem muito diálogo e consentimento. Experiências que colaram na vida de muitas mulheres e as marcaram até a maturidade e velhice, sem que muitas conseguissem se libertar desses fantasmas. O desejo sexual e em especial a sua prática transformados em verdadeiras bombas, tal qual como eu imaginara/pensara naquela noite em que levaram a minha namorada e me deixaram sozinho no baile. Um explosivo que feriu nós dois e produziu ferimentos distintos, que eu nunca soube dimensionar.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Um filme erótico inesquecível

 

Em 1970 eu cursava a quarta série ginasial num colégio católico e o Irmão Heitor, professor de Língua Portuguesa, volta e meia interrompia o assunto da aula e lascava um sermão moralista. Às vezes a respeito do cinema que explorava “cenas de nudismo e carícias lascivas” e creio que foi dessa maneira que eu soube que um filme com a Brigitte Bardot estava passando num cinema próximo à escola, no Cine Colombo. Tratava-se de “Les femmes”, direção de Jean Aurel, produção franco-italiana, 1969.

O Irmão Heitor, claro, sentava o pau nesse tipo de produção cinematográfica e na sua “repercussão negativa na formação moral da juventude”. Um colega conhecia o porteiro do Cine Colombo e, durante o recreio, combinamos que iríamos assistir ao filme. Era pagar uma gorjeta ao porteiro que ele esquecia a improbidade da fita para menores de 18 anos e nos deixava entrar.

Marcamos encontro na porta do cinema (para a sessão da tarde), juntamos o dinheiro da gorjeta e ficamos esperando o sinal. Quando bateu o início da sessão, passamos correndo pela roleta e subimos para o mezanino, a sala de projeção já completamente escura, e lá ficamos “escondidos”, na maior excitação.

Não era um grande filme, mas fabuloso para os guris que nós éramos. Brigitte corria nua no campo, primeiro de costas, com os cabelos voando e a bunda saltitando, depois de frente, os peitos balançando, os cabelos novamente esvoaçando e um sorriso deslumbrante. A vegetação era alta, encobria o sexo, genitália era coisa que o cinema naquela época não focava.

Em outras cenas, ela se deitava de bruços numa cama com lençóis brancos, conversava com o amante, ele a acariciava com vagar e ela reagia com caras e bocas de inocência e sensualidade.

Brigitte era um ícone da cultura de liberação sexual muito falado naquele final de anos 60 e nós queríamos aprender sobre isso. Sexo e amor não seriam entidades distintas como ainda eram para muitos da nossa geração. Queríamos embarcar num novo estilo de vida, mais liberal, ou simplesmente "mais livre e solto", e aquela atriz e surgia como um índice dessa transformação. Um sinal da sexualidade feminina que almejava fazer valer seus desejos, seu gozo, o que para nós era completamente escandaloso (mas nem por isso menos atrativo). O desenho de uma moral sexual muito distinta (na verdade, oposta) daquela que o Irmão Heitor fazia uma defesa enfática nos seus sermões.

Inesquecível aquela sessão de cinema. Quando terminou o filme, estávamos certos de termos realizado uma proeza. Estávamos excitados com o mundo e suas possibilidades. Uma façanha para meninos católicos treinados para a contenção da sexualidade em geral e da feminina em especial.