segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Sexualidade como campo minado

 

Aos 16 anos senti, pela primeira vez, o que era estar apaixonado. A guria tinha 19 anos, se preparava para o vestibular, e me pareceu deslumbrante. Inteligente e vivaz. Com ela tive os primeiros amassos e senti o que era excitação sexual. Que coisa surpreendente e maravilhosa! Mas jamais passamos dos abraços, beijos e carícias. Um namoro que durou pouco mais de meio ano.

Num final de semana fomos a um baile (no salão de uma paróquia) e talvez tenhamos bebido demais, isto é, passado dos dois copos de Coca-Cola com rum cada um. De repente ela sumiu e eu soube que as irmãs dela acharam que ela estava dando vexame e a levaram para casa. Uma delas falou comigo e insinuou que eu não era boa pessoa. Eu ultrapassava os limites da intimidade (amassos além da conta) e, para completar, exagerava na bebida.

Eu não me despedi da namorada e sai do baile para bater pernas sozinho pela rua. Vale destacar que era 1971 e caminhar em Porto Alegre de madrugada não oferecia riscos. Eu tinha o costume de andar pela cidade durante a noite e creio que foi aí que me dei conta de que a sexualidade era um “campo minado”. Sim, nesses termos. Era preciso tomar cuidado. Cada gesto ou atitude precisava ser dado dentro das regras, caso contrário se pisava numa bomba.

Um campo difícil de percorrer, esse da sexualidade. A mãe da guria ensinava para as filhas que sensualidade era luxúria, pecado, e não convinha a uma menina de família se entregar a esses “instintos”. Minha namorada não concordava, não era o padrão que pretendia seguir, mas não conseguia se contrapor à mãe.

Na sequência, fui dispensado (“A mãe acha que tu não serves para mim”, ela me disse) e logo encontrou um namorado equilibrado que, pelo que entendi, a tratava de modo convencional, dentro do estilo “pra casar”. Sem amassos nem bebida além da medida, imaginei.

Engraçado, lembro disso e associo com o que conheci anos depois a respeito de nossos hábitos e costumes (em especial na região campeira): a rispidez masculina na hora do sexo e o tormento das mulheres incomodadas com essa violência. Mulheres que cresciam num ambiente onde os homens faziam sexo de modo brutal (rasgando a roupa da noiva na primeira noite de núpcias, impondo seus “direitos de esposo”) e se habituavam à histórias de namoradas, noivas e casadas que eram abusadas, até estupradas. Muitas vezes suas irmãs, mães e tias, que se digladiavam com seus respectivos, às vezes cediam de má vontade, outras vezes não. “Tu estás fedendo a bebida”, a esposa falava. “Ao menos toma um banho, pra tirar essa graxa”, pedia outra. Ou, simplesmente: “Não, agora não”. 

Um contexto cultural (sempre difícil de ser enfocado) no qual o sexo era terreno perigoso, seja porque fosse “pecado”, seja porque tivesse de ser realizado sem muito diálogo e consentimento. Experiências que colaram na vida de muitas mulheres e as marcaram até a maturidade e velhice, sem que muitas conseguissem se libertar desses fantasmas. O desejo sexual e em especial a sua prática transformados em verdadeiras bombas, tal qual como eu imaginara/pensara naquela noite em que levaram a minha namorada e me deixaram sozinho no baile. Um explosivo que feriu nós dois e produziu ferimentos distintos, que eu nunca soube dimensionar.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Um filme erótico inesquecível

 

Em 1970 eu cursava a quarta série ginasial num colégio católico e o Irmão Heitor, professor de Língua Portuguesa, volta e meia interrompia o assunto da aula e lascava um sermão moralista. Às vezes a respeito do cinema que explorava “cenas de nudismo e carícias lascivas” e creio que foi dessa maneira que eu soube que um filme com a Brigitte Bardot estava passando num cinema próximo à escola, no Cine Colombo. Tratava-se de “Les femmes”, direção de Jean Aurel, produção franco-italiana, 1969.

O Irmão Heitor, claro, sentava o pau nesse tipo de produção cinematográfica e na sua “repercussão negativa na formação moral da juventude”. Um colega conhecia o porteiro do Cine Colombo e, durante o recreio, combinamos que iríamos assistir ao filme. Era pagar uma gorjeta ao porteiro que ele esquecia a improbidade da fita para menores de 18 anos e nos deixava entrar.

Marcamos encontro na porta do cinema (para a sessão da tarde), juntamos o dinheiro da gorjeta e ficamos esperando o sinal. Quando bateu o início da sessão, passamos correndo pela roleta e subimos para o mezanino, a sala de projeção já completamente escura, e lá ficamos “escondidos”, na maior excitação.

Não era um grande filme, mas fabuloso para os guris que nós éramos. Brigitte corria nua no campo, primeiro de costas, com os cabelos voando e a bunda saltitando, depois de frente, os peitos balançando, os cabelos novamente esvoaçando e um sorriso deslumbrante. A vegetação era alta, encobria o sexo, genitália era coisa que o cinema naquela época não focava.

Em outras cenas, ela se deitava de bruços numa cama com lençóis brancos, conversava com o amante, ele a acariciava com vagar e ela reagia com caras e bocas de inocência e sensualidade.

Brigitte era um ícone da cultura de liberação sexual muito falado naquele final de anos 60 e nós queríamos aprender sobre isso. Sexo e amor não seriam entidades distintas como ainda eram para muitos da nossa geração. Queríamos embarcar num novo estilo de vida, mais liberal, ou simplesmente "mais livre e solto", e aquela atriz e surgia como um índice dessa transformação. Um sinal da sexualidade feminina que almejava fazer valer seus desejos, seu gozo, o que para nós era completamente escandaloso (mas nem por isso menos atrativo). O desenho de uma moral sexual muito distinta (na verdade, oposta) daquela que o Irmão Heitor fazia uma defesa enfática nos seus sermões.

Inesquecível aquela sessão de cinema. Quando terminou o filme, estávamos certos de termos realizado uma proeza. Estávamos excitados com o mundo e suas possibilidades. Uma façanha para meninos católicos treinados para a contenção da sexualidade em geral e da feminina em especial.